quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Cimento (uma memória)




A única coisa certa na vida é a morte. A única coisa certa naquele quarto era o cadáver. Cheiro fúnebre de projeto de vida escorrendo pelas imagens sacras na parede. A tosse que vinha de lá pontuava um erro. Na minha cabeça, a vida do passado dela já estava em outro lugar. As histórias contadas eram fantasmas fétidos nos armários de roupas antigas.
Com a descoberta do sexo o pavor aumentou. No quarto de vovó, o meu avô não existia há tempos. E ela também não mais devia estar lá. A vida estava na família enorme, gerada no quarto. A cama de esperma era endurecida e apagada antes mesmo de existir como imagem de finalidade. Sua estrutura era a mesma daquele esqueleto solitário que fingia andar vestido de casacos de lã.
Quando brincava e lá me escondia, com ela ausente da habitação, também me fingia uma morte já sentida. Projeto de vida no brincar ao redor do túmulo. As cores roxas; nada lúcidas; nada eróticas. O gozo que jorra no espaço um tempo destinado ao fim. Minha vó era e servia de cobra que cisma em querer não-morder o próprio rabo. Humana? Demasiadamente estúpida em insistir uma vida que não é mais sua. Um espartilho mofado encostado no armário de roupas mais antigas ainda.
E ela voltava e me expulsava e se enfurecia. Melhor do que filme de horror na madrugada. Um quarto no fim do corredor de madeira, à direita. Não entre que é da vovó. E ela adiando o suspiro final. Rouca. E eu suspirando as histórias dos porta-retratos.
A casa foi demolida e ela... continua fingindo estar viva. O quarto se admitiu morto antes dela. Continua mais branca que a cal dos tijolos tombados (1). Aposto que foi ela que tombou o quarto para ritualizar um orgasmo e continuar sua farsa.
Hoje mora em outro quarto. Quanto mais corpos tombarão antes que ela faça a única coisa certa da sua morte, que é pontuar a vida.
 
-------------------------------------------------------------------- 
  1.  Descobri que as faixas das múmias tinham cal em sua composição.

Um comentário:

Arion disse...

Magnífica imagen (se nota que siempre acompañas tus textos de buenas imágenes).