domingo, 7 de novembro de 2010

O Bom Menino.


 O autor deve escrever sobre o universo, não sobre o que sente. Meto um punhal em meu coração e viro um personagem no momento em que o ônibus sai do terminal. Ouço a música de Psicose no fundo da cabeça, tocando por mil autofalantes surdos de vergonha. Nada de álcool, nem de qualquer outra substância para ativar o pensamento, apenas o estado nevrálgico de mais um dia salvo, mas até quando? Dizem que para o ansioso não existe 'amanhã' no dicionário, então como é que isso é o que mais me preocupa? Sem nenhum caminho para seguir, a não ser o que vou me perdendo, pouco a pouco, nos erros. Erros gerados por achar que sou invencível, invisível, improvável seria isso ser verdade, a improbabilidade se fere quando a morte espera a mesma no virar da esquina. Merda! Mais um dia que se vai, salvo, mas não são. Até quando?
Espero um pouco de paz, espero um pouco de vermelho, branco e preto, não é de Coca que sinto falta, seja ela qual for, é de um pouco de pureza, um pouco do passado, aquilo que o meu próprio monstro matou, escondendo o verde catarro (sim, eles fizeram disso um catarro) em baixo de um pano, foi ela, foi ela, mãe, foi ela. Quem mais teria sido?
Entre ligações para o disque-sexo e orações falsas, querendo apenas a redenção, o garoto chora na cama, mas não sai nenhuma lágrima. A lágrima só cai, sempre apenas caiu, por culpa de sentimentos feridos. É o medo do abandono. É o medo de esquecerem que ele existe, que ele está sangrando por dentro, que existem mais verdades do que até ele mesmo imagina, ele sabe disso, ele se esconde atrás das pálpebras, e o ônibus dobra mais uma rua. Pensamentos vagando, o coração aperta, pessoas paradas esperando, pessoas paradas embarcando, ele também embarca, é mais uma viagem, ele não sabe se está morrendo, ele não sabe o que será do amanhã, ele espera agora uma caneca de café, suor frio na madrugada, mais um pedido de redenção, caralho, como dói se masturbar com a bexiga cheia.
Lembranças da primeira vez, o pau crescendo na mão, o coração nervoso, a mesma sensação do bandido, a mesma sensação de quem fez algo de errado, pois está sempre fazendo algo de errado. Ele não tem nome, pode ser eu, pode ser você, os fatos não correspondem a realidade, e isso é o que menos importa. O sono caiu, e com ele o carniçal coração. Bem vindo ao mundo dos sonhos, menininho.

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