quarta-feira, 7 de julho de 2010

Clarividência preneumonitórax.


- A morte só pode ser enganada num jogo de xadrez nos filmes.
- Falas isso pois desejas encontrar honrar na tua própria queda.

Andavam juntos há muitos anos, sem saber aonde era a morada do Destino.

- O que seria uma queda de honra para você?
- Não sei – disse para Ele – Como eu poderia saber?
- Achei que de por andares com todos os seres vivos eras o maior dos sábios.
- Sabedoria não é uma metodologia, por isso não consigo me expressar aos vivos.
- Entendo. Então a tua sabedoria não é uma verdade?
- Não te ouço sempre que falas em verdades.
- Não me escutas pois estás sempre longe.
- Não estou longe, você que assim me vê. Estou sempre andando contigo, e sabes disso.
- Tem até uma música sobre isso.
- Você sempre colocando cultura no meio de assuntos sérios.
- Minha filosofia também não é só uma metodologia.
- Isso é o que você pensa.
- Isso é a mais clara das minhas verdades.
- Verdades. Verdades. Você sempre preocupado com as verdades.
- E você sempre sendo cético.
- Não sou cético, só penso que depois de tanto tempo comigo deverias se preocupar menos com as coisas. Quando você vai aprender a pulsar? O que te deixa mudo, meu amigo?
- O que me deixa mudo é o medo.
- Mas dizes para todos que guardas o medo no bolso esquerdo de tua camisa.
- E não minto. Só omito que por maior controle que eu tenha sobre os meus inertes pertences, não consigo deixar de me afetar por eles, e você sabe, o bolso esquerdo de minha camisa fica logo em cima de meu coração, e tenho medo da beleza pois sou cego.
- Você tem certeza que é de dentro do teu peito que está a pulsar o teu coração enquanto caminhas?

Chronos não obteve uma resposta, Ele já não estava mais ali. Impossibilitado pela dor de olhar para baixo, cantarola uma velha canção de liberdade e esperança, e sai dançado na beira do abismo, pois a sabedoria que ali dança tem os seus passos ecoadas no vazio, por mais abafada que tentativa saia.

A beleza do momento faz os olhos de Chronos se fecharem às lágrimas da sinceridade experimentada nos segundos que precederam o seu próprio tropeçar.

4 comentários:

Yuri disse...

Flui, e com isso fluí. Tens o dom do diálogo.

Thara disse...

Ainda prefiro a conclusão ao diálogo.

Anônimo disse...

ainda prefiro o silêncio ao diálogo.

Frico Giacomo disse...

Legal o diálogo. Fazia tempo que não passava aqui