segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Escrita em D menor.


São 5 horas da manhã. Estou pensativo desde às 19 horas de ontem. Levanto da cama neste horário, que é um dos que mais gosto, quando a noite ameaça ir embora e a insônia já cansou de debochar de mim... agora apenas me observa do beiral da janela, com seu cigarro acesso e perguntando se posso lhe servir mais um copo de whisky. Respondo que o meu já secou há quase hora e que ela se vire. Esta é a hora que mais gosto, pois sou eu que debocho da insônia, vindo aqui escrever uma carta aberta a todas as testemunhas de minha persona non grata.

A noite está bela, vejam vocês que agora dormem e perdem este céu negro. Vocês que, deitados com um manto de lã, esquecem do manto lá fora, da pérola negra, da bela madrugada, da lua cheia e excitada que me causa espasmos temporários. Sou amante da lua, já que é o corpo celeste que mais bem me recebe nesta hora solitária. Choveu ontem. Acabei de dar uma olhada na rua ainda molhada e brilhante, refletindo a luz da minha amada esperança no dia que logo chega para abrir os olhos repousados dos outros, enquanto vou descansar os meus. Quero mais uma vez amanhã olhar para esta paisagem lá fora, e assim me tranquilizar com esta natureza que sou eu e é você e por isso é linda. Minha mente novamente se confunde, esta não é uma carta para ninguém. Nova linha, continuo.

Não há cantos em parte algum, tudo está arredondado, suave e imaculado. Não existem formas, existem idéias, existe beleza, existem minhas percepções do tempo e espaço, existem meus sentimentos, existe meu quarto arrumado para o quarto de carne da alma que não vem, existem meus aparelhos eletrônicos expulsando sonoras combinações perfeitamente, existe comida na cozinha, existe saúde em meu corpo e em minha voz, quando brindo mais um copo à simples existência minha e tua, e sinto, pelo menos por hora, que sou o mais sortudo e satisfeito homem do mundo.

Se você estivesse aqui, iríamos beber e nos deitar embaixo do sopro pretenso refrescante do meu ventilador de teto, para olhar lá fora e ver as luzes da rua se apagando, as luzes da natureza se acendendo, as nossas luzes recompostas de fogos possíveis... gerados pela razão de todos os desejos mundanos e todos os momentos bem aproveitados e todos os momentos desperdiçados e compensados com o toque de línguas e dentes e mágoas e amores e passado, que não passa de uma ficção em nossos diários mundanos. Oh pérola, oh prata, oh carne rosada e enviesada que não está aqui ao toque de meus dedos trépidos. Que em certo ponto da cidade o masturbador contínuo se esconde atrás das sombras, a desejar a possibilidade que aqui mantenho como um segredo em meu baú de jóias, a possibilidade que não usufruo agora sem nem saber o real motivo, a possibilidade que me é negada e que motivou há horas os pedantes monstros que me habitam, os vermes que insisto em esconder nas paredes de meu crânio, que cheio de vinho poderia alegrar os passados soldados da justiça. Onde está a justiça em meu caso, se não nas lembranças que me assolam no passar das horas?

Já que meu desejo é impossível neste momento, vou escrever. Primeiro vou dizer algo que nos envergonharia muito, se eu o falasse. Isolado das pessoas, ultimamente tenho tido tempo para observar as suas reações às questões atuais e vi muitos se traírem, vi muitos fracassarem em provas decentes de conduta. Alguns, meus amigos. E eu os descartei sem dó, como a unha cortada e não tive sensação de perda nesse processo. Esta é uma carta sobre tudo e sobre todos, para tudo e para todos. É uma carta travestida em meus receios a ti criatura errante, mas é uma carta de falo tão prepotente que irá subjugar a todos que me visitarem nesta madrugada. E mais uma vez, nova linha, continuo.

Durante toda essa minha experiência inédita e interessante, meu respeito por alguns se intensificou e minha afeição se tornou mais profunda. Boas intenções que se revestem em reais motivações sempre me aquecem e fazem brotar das sementes que plantei no passado, esperando nascer belos olhos em cachos e estes apontados para pessoas melhores, se não em ações imediatas, mas em chamas que brotam dos ventríloquos cardíacos rebeldes, revoltos destes mesmos que acompanho e me fazem engolir a seco diariamente. Você, que muda sua atitude ou pelo menos as suas preciosas metas de melhoras para o futuro em relação a mim e a outros e à vida em si mesma. Você que tem a disposição em apoiar a opinião alheia qualquer que ela seja, desde que não prejudique outrem, mesmo ao discordar dela. Por seu senso pessoal de ultraje, diante dos que negam este direito. Diante dos que dizem que é errado pensar algo. Diante dos que dizem que você não conseguirá ser melhor do que já é. Você que erra, mas sabe que erra, aponta seu próprio erro, e erra novamente ao mudar, mas sabe que não será sempre assim e sabe que amanhã você conseguirá, e amanhã ao errar, vai novamente buscar a melhora, e aí então conseguirá o que tanto deseja. Errando claro, pois todos erramos ao achar que sabemos o que é melhor para nós mesmos, além de sermos nós mesmos e tentarmos nos unir em um só, e esta é a face do amor. Ah, o amor. Mais isso fica para outra carta, pois agora é hora da velha conhecida nova linha, continuo.

Todas estas minhas idéias impressas para ti que sabe e para ti que não sabe, tudo isso, e tudo aquilo faz homens e sociedade decentes, e por homens digo os que carregam órgãos reprodutores masculinos e os que carregam órgãos reprodutores femininos, maldita língua, malditas palavras, maldita necessidade de expressão que tanto idolatro. Busco mais um copo. Menti que havia acabado a bebida. Menti pois não queria entrar mais uma vez nesta idéia da prisão do escritor, eu que nem sou escritor e que nem sou amante, mas ao fingir ambos sou sincero com o que sinto aqui dentro, e agora é hora de mais um jorro de amores e palavras de um amante escritor que não se cala, não se cala, não se cala...

Toquem uma sinfonia para sobrepor a canção que toca em meu coração, que chora de saudades de uma alma como a minha que repousa em outro canto disso que chamam de Terra, e também sorri mais uma vez. A madrugada ainda não acabou, então escutem que tenho mais para falar. Sim, ouço a sinfonia desejada, e ela vai servir de trilha incidental para o próximo trecho de minhas contemplações. Contemplo amanhã levantar para um dia de trabalho, eu arrumo o que fazer, mas não sei se gosto do que faço. Não pela definição do que faço, mas por não sentir que estou explodindo cosmos com as ondas que projeto em pensamentos, sempre que penso em meu potencial. Não me chamem de arrogante, estou pensando também no seu potencial, caro leitor. Você é um charlatão ou também acredita no que poderia fazer neste momento. O que você está fazendo neste momento? Eu, neste momento que estás me lendo possivelmente estou à toa. Fico à toa muito tempo. Ando por aí e incomodo as pessoas e sonho com o dia em que me desprenderei de tudo. Estou impaciente para algo acontecer, bom, ruim ou indiferente. Quero me mudar para algum lugar. Acho que podíamos viver bem e ficar ricos no México, não é? Estou disposto a ir a qualquer lugar em que eu viva, talvez não em paz, mas com luxo em minhas próprias definições de luxo. Se eu pudesse passar os próximos dez anos na Cidade do México, ganhar o suficiente para poder brindar todas as noites com pessoas que quero ao meu lado, nada improvável, e assim pagando impostos mexicanos e guardando parte do dinheiro, eu iria na hora. Quero viajar. Quero morar em Cuernavaca. Quero deixar de pensar em tristezas. Quero somente pensar no meu custo de vida, posições sexuais, ideologias frenéticas, na saúde de meu fígado, em páginas marcadas, películas, fotogramas, imagens sem sentido, letras, pensar no nada, na vida, em você, no futuro belo que existirá, nas flores, no cheiro de uma nova descoberta, no almoço, nas palavras ditas sinceramente em meu ouvido, nas crianças, nos olhares que te darei, nas danças festivas, no fim do ano, no começo do ano, na despedida, no retorno, na minha família, nos amores perdidos, nas verdades que aprendi com o passar dos anos e na Virgem de Guadalupe. Se eu pudesse pensar nisso tudo, iria agora para o México. Mas a madrugada está chegando ao fim. Pouco tempo para acabar meu raciocínio ilógico.

Não acredito mais que sei mais do que qualquer outro. Não acredito mais que sei menos do que qualquer outro. Naturalmente, quero descobrir o que sei e o que não sei e compartilhar as descobertas com vocês. Mando lembranças, misericórdia, fraternidade e comiseração. O mímico agora descansa, não prometendo nada para não assustar os que buscam algo nestas manifestações de um alguém, que de tanto querer o bem, acaba sendo confundido com o coadjuvante sagaz de um romance barato, que se vende na esquina. Sombreros e maracas e tiaras aos que forem me encontrar no México. Verdades aos que aceitarem beber de minhas vísceras. Amores aos que buscarem aprender algo e se contentarem com este professor tolo. São 6 horas da manhã. Adeus estranhos.

3 comentários:

Yuri disse...

Wow, algumas coisas até parece que saíram de mim. Mas eu um outro, claro. É como a minha escrita (auto-elogio muito grande), mas diferente. O mesmo olhar, mas com outros olhos. Não é paradoxal não, faz sentido. Belo.

Tatah disse...

Muitas coisas fazem sentido não só para você, mas para mim também.
A lua realmente é linda, é uma companhia, é uma amiga.
Admiro sempre que a vejo, e não me canso.
Bela carta. Parabéns!

PS: você escreveu tudo isso em apenas uma hora? Ok.

Thaís V. Manfrini disse...

Aceito maracas. Não se cala - Ébrio e lindo...