terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ao toque de teus líricos lábios.


- Podemos começar?
- Podemos.
- Nome.
- Tu já sabes.
- Certo. Idade.
- Me darás uma logo após a entrevista baseado no que achares de mim.
- Não deveria deixar passar, mas mais uma vez, certo. Profissão.
- Humano.
- Digo, a profissão que você atua.
- Sim, sou humano. Ser humano. Sou um ser humano.
- Você não é poeta?
- Eu era poeta. Eu achava que era poeta. Agora sou apenas uma farsa. Desde a primeira vez que vi uma jovem moça se masturbando em minha frente, pessoalmente, deixei de me considerar poeta. O que estas jovens fazem com seus delicados dedos para as nossas almas é poesia. Meus textos não são poesia, não tem a beleza deste citado ato, não tem o ritmo, não tem a paixão. Siririca. Isso é poesia. O cheiro. O som. A imagem. A reação que tenho. Estas belas que vejo nas ruas todos os dias. O que elas causam em nós é poesia. Meus textos são farsas, eu sou um farsante, como todos os humanos. Anote aí. Profissão? Ser humano.
- Assim você dificulta meu trabalho.
- Qual o seu trabalho?
- Jornalista oras. Estou te entrevistando, não estou?
- Não.
- Não estou?
- Estás preenchendo campos.
- Sim, é o começo da entrevista. Preciso dos seus dados. Preciso saber quem você é.
- Meus dados não dizem quem eu sou.
- Não foi isso que eu quis dizer.
- Então seja mais clara.
- Você... Eu... Eu estou tentando... Ahn, esquece. Posso continuar?
- Pode.
- Quando você começou no campo da poesia?
- Quando era pequeno. Meu pai me disse que iamos para um local conhecer algumas pessoas que me ensinariam um pouco mais sobre a vida. Cheguei lá e vi belas mulheres nuas. Nesta noite que comecei no campo da poesia.
- Não entendi.
- Tu não queria saber quando me envolvi em um processo poético pela primeira vez?
- O senhor é muito tarado.
- E a senhora foi indicada para entrevistar o cara errado.
- Primeiro lugar, não sou senhora. Segundo lugar, o senhor não é o autor destes vários livros que ganharam prêmios e prêmios mundo a fora?
- Sou.
- Então, como estou entrevistando o cara errado?
- Eu sou o cara certo se prêmios é o que te interessa, mas sou o cara errado se falar sobre prêmios é o que te interessa.
- Sobre o que você gostaria de falar então?
- Não sei. Topas me ajudar a completar uma nova poesia que estou imaginando a composição desde que tu entrou nesta sala?

4 comentários:

Marcella disse...

pervert.

like it.

Os Sujos disse...

muito bom mesmo

Os Sujos disse...

opa, blz? claro que nós gostaríamos de republicar o seu texto no blog. Estou começando um conto hoje, que irá terminar amanhã-os outros sujos tem pautas programadas para sexta, e sábado. Domingo está, liberado, podemos agendar para este dia? anote aí meu e-mail e vamos nos correspondendo:

bianco.cunha@gmail.com

vou colocar seu blog nos altamente recomendáveis! seus textos também são do caralho!

WFP disse...

Este texto é PERFEITO. Parabéns. É lindo, erótico e criativo. Incentivo a viver a vida retamente de acordo com o próprio bom auto-entendimento e retificação do discurso, o que [imprevisivelmente?] desboca em inversão do discurso do espetáculo em seu oposto, o discurso criativo. Muito legal.