quinta-feira, 5 de novembro de 2009

The Piano Has Been Drinking (Not Me)

Q: What’s heaven for you?
A: Me and my wife on Rte. 66 with a pot of coffee, a cheap guitar, pawnshop tape recorder in a Motel 6, and a car that runs good parked right by the door.

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Parte de uma entrevista com Tom Waits, o cara que ouço neste momento para ilustrar estas palavras mais. Somente mais palavras mais e pianos bêbados encharcados em álcool e fumaça, mas não eu. Estou aqui só ouvindo os dedos sujos deste cara tocarem melodias, enquanto fico bebendo o que resta no copo de suco de laranja. Acabou o café e não quero exagerar o burlesco com mais cafeína. É estranho como em certos momentos você está bem e nada te atinge. Depois por alguma besteira você avança para a zona azul do cérebro. Do cérebro pois estou dando um toque belo a um ponto que só é pintado por palavras normalmente. Seria o mesmo que dizer a zona cinza do coração, mas ao inverso. Preferi a primeira opção pois me levam a crer não ter coração, tal como o Homem de Lata que não podia nem chorar que enferrujava. Mas se até Nietzsche chorou, e Schopenhauer endoidou, o que será do cara com sentimentos de uma criança com 3 anos de idade? Oras, é só um personagem me disse o corvo que está na minha janela. Na verdade a janela é minha orelha, e o corvo sou eu. E o Tom Waits continua cantando aqui do lado. Por sinal, qual o motivo daquele trecho no começo do post? Nenhum exatamente, além de claro, concordo que aquela cena descrita por ele seria uma espécie de 'heaven'. Mas se te destinam a uma sebe de futuros que fraquejam, e tu acabas embarcando neste primeiro bote que para na beirada no passeio que estás a andar, pois veja só, existe um navegador ali dentro, seguro será? Como... e ao mesmo tempo, por qual motivo assim o fazes. Quando te restam apenas filmes bestas para te animar, motivo pelo qual te dizem ser sentimental, te resta o que exatamente? O morto ergue a cabeça e diz que não está morto. O vivo abaixa a cabeça e acredita que tudo se ajusta com o passar do tempo. Nada se ajusta com a cabeça baixa, ou quando assim o fazem, o vivo não está vendo. O morto aponta, mas mortos não falam, e o apontar já sabes que é falho, não é mesmo meu amigo? Leonard Cohen cantou sobre o futuro, deu visões pessimistas, cantou Suzanne com otimismo, encantou Suzanne com animalismo, de carne fez a carne, e oras, não deixou os problemas quebrarem sua esperança. Mas foi para longe meditar. Estes mesmo tolos, imbecis, estes que em certo momento acreditaram terem a força, depois de um tempo abaixaram a cabeça. E os mortos continuam a não falar. Mas alguns conseguiram superar. O que resta ao cara que escreve de madrugada, com a luz baixa, com o copo agora vazio? Resta fazer mais café, pois ele trai até seus medos, e vai lá se encher com mais cafeína, enquanto o piano continua bebendo e bebendo, mas não ele. Não ele... ele não bebe, só lamenta que os outros estão a beber, e assim percebe que se deixou atingir por falácias, e que não é nenhum robô, e então bebe, café mas bebe, pois isso também é considerado bebida, certo? E então bêbado com energia vital de almas alheias se engana que está novamente bem. E se engana que em algum momento estará lá, com sua esposa, na rota 66 com um pote de café, uma guitarra barata, um gravador cassete em um motel vagabundo de beira de estrada, e um carro bacana estacionado do lado de fora. Dramas e sonhos. Canções de blues e de amor tocadas naquele mesmo piano que nomeia este texto parte pessoal, parte ficcional. Qual é qual? Puxe uma cadeira e acenda o meu cachimbo que eu te conto, mas é uma longa história... amigo, tens tempo?


3 comentários:

Yuri disse...

Teus posts cada vez mais têm carregado um cheiro de cigarro e um gosto de café (que invariavelmente me trazem um gosto de cigarro e um cheiro de café). Tudo com uma camada de textos que só poderiam surgir nesse horário. Isso sim é 'vida inteligente na madrugada'.

@samambaia_ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
@samambaia_ disse...

Como estou? Embriagado ao sorver cada palavra. Vou fumar e já volto!