segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Palavras desconexas procurando um autor.


Jack Kerouac, irritado, irritante
Poucas viagens, mentiras e difamações
Mudou o gênero, bateu na máquina um diário
Influência viva até hoje;

Sade, odiado por quase todos, louco
Habilidades sexuais fracas, nenhum amor
Seduzia com as palavras e os toques
É considerado o amante perfeito;

Hemingway, bêbado e psicótico
Poucos amigos, odiado pelas mulheres
Lembrado até hoje pelos seus textos
Exemplo grandioso de paixão pelo viver;

Henry Miller, mentiroso, falsário
Traidor, poucos casos, muitas falácias
Renovou a linguagem erótica
Escreveu sobre seus amores como ninguém mais;

John Fante, deprimido convicto,
Pessimista extremo, péssima companhia
Filósofo da vida, palavras que esquentam
Influente até para Bukowski, renovador de existências;

Hunter S. Thompson, corretinho e caretão
Reacionário contraditório, fiel e carente
Líder da contracultura, incitou revoluções
Explodiu paradigmas e mentes fechadas;

Arthur Rimbaud, jovem mimado, filhinho de papai
Falso em suas dores, ignorante em sua vida
Desfigurou o uso das palavras, dançou com o texto
Vomitou linhas poéticas e mudou o olhar do mundo;

[este trecho foi adicionado em edição da postagem, não estava originalmente aqui]

Antes de continuar, já que falei no Buk, tomem uma pílula de suas palavras. Se meu texto falar em incitar o calor no coração de vocês, leitores, pelo menos tenham as palavras do velho safado em mente para quem sabe servir de algum consolo.

"A verdade é que somos umas monstruosidades. Se pudéssemos nos ver de verdade, saberíamos como somos ridículos com nossos intestinos retorcidos pelos quais deslizam lentamente as fezes... enquanto nos olhamos nos olhos e dizemos: ‘Te amo’. Fazemos e produzimos uma porção de porcarias, mas não peidamos perto de uma pessoa. Tudo tem um fio cômico.
Nunca me senti só. Durante um tempo fiquei numa casa, deprimido, com vontade de me suicidar, mas nunca pensei que uma pessoa podia entrar na casa e curar-me. Nem várias pessoas. A solidão não é coisa que me incomoda porque sempre tive esse terrível desejo de estar só. Sinto solidão quando estou numa festa ou num estádio cheio de gente. Cito uma frase de Ibsen: ‘Os homens mais fortes são os mais solitários’. Viu como pensa a maioria: ‘Pessoal, é noite de sexta, o que vamos fazer? Ficar aqui sentados?’. Eu respondo sim porque não tem nada lá fora. É estupidez. Gente estúpida misturada com gente estúpida. Que se estupidifiquem eles, entre eles. Nunca tive a ansiedade de cair na noite. Me escondia nos bares porque não queria me ocultar em fábricas. Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar."

Pronto. Auto-estima levantada? Aceitaram que não são nada? Excelente. Agora esqueçam o que ele disse, voltem a pensar que são alguma coisa, pois assim eu acho que são, e no fundo o Buk também achava, como demonstrou em outros textos que escrever, mas sabem como ele é... não pode perder a pose. E é justamente sobre a pose que eu vou falar. Foi por isso que adicionei este complemento. Máscaras em mãos? Então, vamos ao que eu digo. O baile vai começar. É para isso vocês estão aqui, certo?

[fim do trecho adicionado em edição]

Alguns exemplos de escritores que me alimentaram a vida inteira. Alguns exemplos de defeitos que eles tinham. Não por isso deixaram de mudar a vida dos outros. Não por isso exatamente estavam enganando. Transpunham encantamentos através de personagens de si próprios. Quem os culpa pelos defeitos? O fazem menor do que são? Quem sou eu para virar a cara para seres perfeitos em suas indelicadezas. Se não fossem suas falhas as virtudes não seriam tão especiais. Se não fossem minhas falhas quem eu seria? Seria uma fuga que os fez não expor estas falhas? Kerouac apesar de tudo foi um dos melhores amigos para vários de sua época. Sade por meios diferentes fez diversas mulheres voltarem a acreditar no prazer. Hemingway fez diversos homens buscarem novamente o amor em alguém especial. Miller fez estes mesmos homens aceitarem seus defeitos e desejarem contornar eles para satisfazer este alguém. Fante fez homens e mulheres sorrirem pensando que mesmo a vida sendo cruel, vale a penas viver ela e querer que ela seja a melhor possível. Thompson mostrou que os loucos são os melhores, e que ser careta pode ser uma forma de loucura quando se é por si só, não para agradar os outros. Rimbaud mostrou que os sentimentos são valorosos e merecem ser expressos, nem que disfarçados como lamúrias de um barco bêbado.

Estes foram alguns exemplos apenas, poderia passar dias e dias citando outros seres completamente imperfeitos, mas completamente adoráveis, mas acho que mais do que citar, é melhor eu esperar que vocês leitores por um momento parem de buscar a perfeição e comecem a buscar a compreensão. Esta postagem saiu de uma limpeza mental que estava tentando fazer ao caminhar hoje. Acabei de passar por uma monografia que partiu minha mente em diversos pedaços, estou cansado dela até agora, e não pelo processo em si, mas pelas reflexões que ela me trouxe. Um casal amargurado pelos erros que cometeram casa um individualmente no passado com outras pessoas, se encontram em uma cidade e resolvem tentar fazer o outro pagar pelo que não merecia, buscam o prazer na dor do desconhecido que divide o quarto, entre estupros e calúnias cavam um amor que não existe, que já perderam, que não souberam lidar com seus antigos parceiros, e agora querem extrair de qualquer forma de quem não merece. Outro casal no Japão se forma em busca do prazer extremo que um pode proporcionar ao outro, e ficam cegos com isso, a ponto de esquecer que são humanos, e isso acaba trazendo a morte. Excluí dois outros filmes do trabalho, mas acabei sendo influenciados por eles também. Um casal em um cruzeiro vê em outro casal um relacionamento perfeito, e invejosos tentam reproduzir a perfeição da grama do vizinho na sua, mas a grama do vizinho não era tão perfeita, só que quando se tem algo, esquecemos de aproveitar isso para tentar corrigir os defeitos a qualquer custo. Por último um casal se forma da violência e da dor, um casal descobre o masoquismo como forma de prazer, um casal cansado do tradicional acaba extrematizando em formas erradas, em vez de sair sim do tradicional, mas seguir seus instintos, não seus medos. Foi um TCC sobre medos, sobre o prazer cego, e principalmente sobre a falta de aceitação que temos com tudo e todos. Às vezes menosprezamos o esforço de nossos correlacionados por egoísmo. Temos imagens do ideal e se este ideal não é alcançado erguemos a bandeira da culpa e do desprezo. Pode ser que seu amigo não tenha conseguido te ajudar da forma que querias naquela competição, mas ele tentou, não tentou? Pode ser que sua irmã não tenha demonstrado dar tanta importância a uma novidade sua, mas quem disse que não deu mesmo? Reações são diversas, motivações são complexas, demonstrações são satisfações. E às vezes quem sabe não seja nem falta de reação, motivação ou demonstração do outro. Temos limites, temos habilidades inatas, temos pensamentos próprios, temos também falta de estímulos, mas às vezes geramos falta de estímulo nos outros e não percebemos.

Nesta questão de se relacionar adicionei ao quarteto acima um novo filme. Homens como medrosos e invejosos. Mulheres como bruxas e cruéis por natureza. O ser humano como o verdadeiro mal. Se este instinto está na gente ainda se tem chances de mudar algo, é o que o filme me perguntou. Na hora pensei que aquilo seria uma visão simplória de uma situação mostrada em cena, mas ele fazia questão de dizer não, não é, tu também é um imundo como isso que estou te mostrando. Admita para si mesmo que você não gosta de ninguém e pouco liga para os outros. Admita! Então sai do quarto e fui buscar uma rodada de água para mim e para o filme. Quando ele estava mais calminho coloquei a cabeça para pensar. Não adiantou, a noite passou e fiquei com meus questionamentos e conflitos internos latejando. Então veio o medo da verdade do filme. Então eu virei o personagem do filme em partes. Então eu quis superar isso. E digo que sim há chances para nossa espécie, enquanto houver alguém interessado em não seguir as normas que te ditam, sejam as normas de um grupo dominante, sejam as normas da arte... mas espere, não vejo como o filme querendo me ditar algo. Eram apenas provocações, certo? O papel da arte em partes é te provocar. É como aquele velho amigo que é o primeiro a te sacanear, mas também o primeiro a te dar uma força quando a coisa é séria. Por isso amo os artistas. Artistas formam a versão humana das artes. Quero amigos artísticos, amores artísticos, pensamentos artísticos, futuros artísticos, e meu papel nisso é ser poesia sempre para inspirar o que me cerca. O papel dos outros é agir igualmente. E nisso a sinceridade, o bom relacionar, o querer o melhor, mas sem exigir algo definido. Querer o melhor não implica em buscar um ideal, e sim buscar a ajuda, oferecer a ajuda, compreender falhas, compreender méritos, apoiar falhas e apoiar méritos, ensinar e aprender, amar e odiar, nunca extrematizar, dar um abraço, chorar um pouco, escrever uma carta, olhar para o céu, caminhar um pouco, acordar de manhã, fazer um chá, fazer um chá para alguém, ligar para um velho amigo, acordar com alguém, chamar alguém para olhar o céu contigo, bater uma foto e enviar para quem não te vê há tempos, mas pensa em ti há iguais tempos, recomendar um livro, se apaixonar por um livro, conhecer o autor de um livro, escrever um livro, dedicar o seu livro para alguém, querer estar com alguém, buscar a rebeldia, buscar a caretice, buscar ser você mesmo, querer ser amado pelo que é, ter filhos, não ter filhos e montar uma ONG, envelhecer ao lado de alguém, colocar flores no túmulo de quem já se foi, sorrir ao lembrar-se deste alguém que já se foi de madrugada, fazer um chá de madrugada e neste chá ver outra pessoa, se animar pois podes ter um alguém para pensar, se animar pois alguém pensa em ti, se animar por estar vivo, e o amanhã já vem.

Não deixo o transtorno de lado, minha mente continua partida em diversos pedaços. Mas eu continuo inteiro. Meu nome é Ismael, prazer.

3 comentários:

Gabriel k. disse...

Ismael,

parece que você deixa claro que odeia o ser humano, o mediano, o mediocre, o über... Não sei, mas é isto que teu texto parece dizer. O que parece ser bom é algo sublime, nada além, nada aquém, somente sublime. Eu deixo claro que nada é surpreendente enquanto estamos falando de seres humanos, principalmente os agrupados. Não sei ao certo se a rapidez da leitura fez eu ter esta interpretação, mas parece que há um susto neste história toda... Enfim... seres humanos são apenas humanos.

Modorra Burlesca disse...

Parabéns, Gabriel, você deu um jeito de entrar no próximo texto do Fly.

Marina F. Rocha disse...

Fiquei ontem pensando em algo legal para comentar, mas não consegui. Acho que um "parabéns pelo texto, gostei bastante" serve. Espero que sirva.