sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Minutos Fatais (Cabeça Deturpada)


Trac. 01:12PM. 11 rápidos minutos de espera pelo ônibus. 11 longos minutos para se gastar olhando os pombos. "Cuidado!" alguém grita, mas não era para ele. Para ele somente os pombos. E para os pombos restos de comida que derrubaram ali perto.

Trac. 01:13PM. Começa a pensar em como os pombos não reclamam do que resta para eles comerem. Mas então lembra dos contos que andou lendo onde pessoas rotas comem e bebem e fodem e não estão nem aí para o ambiente ou as condições de higiene do local. Copos sujos viram penicos, pratos fundos viram tinas para bebidas, dentes podres viram objetos sexuais, fetiches viram o café da manhã.

Trac. 01:14PM. E lembra que com ele não, com ele não era assim. Ele precisava de um prato quente ao chegar em casa. Ou pelo menos o café passado e servido em uma caneca limpa por ele mesmo, é claro. Ele precisava de paredes e precisava de papel em branco, de preferência pautado. Ele precisava de um pouco de chilli bem temperado. Ele precisava de um pouco de qualquer coisa temperada. Uma vez leu numa revista destas que se encontra no dentista um artigo que dizia que existem várias formas de se relacionar.

Trac. 01:15PM. Existe o relacionamento temperado com sexo. Existe o sexo temperado com relacionamento. Existe relacionamento. E existe sexo. Será que este último contava como relacionamento, se nem ao menos tinha 'relacionamento' relacionado nesta categoria? Ele sabia que precisava de tempero em seu chilli, portanto seria previsto que as duas primeiras opções de relacionamento mais lhe agradavam. Então ele seria um namorado com pênis, ou um pênis enamorado? Tanto faz, ainda teria que esperar o ônibus por mais 8 min...

Trac. 01:16PM. ...7 minutos. Pombos. Pombos. Pombos. Pombos.

Trac. 01:17PM. Uma vez falaram para ele que um bom escritor tem que viver bebendo e fumando e ocasionalmente fudendo com alguém. De preferência uma mulher, claro. Se bem que tem aqueles caras que adoram fuder com os outros mas não no sentido que imaginou estarem lhe recomendando. Será que ele era mesmo um bom escritor? Gostava de ler manuscritos de amigos e todos escreviam aceitavelmente ao seu ver, e ele mesmo relendo o que escrevia achava medíocre. Mas falaram para ele diversas vezes que escrevia bem, e dizem que a voz do povo é a voz de Deus.

Trac. 01:18PM. E a voz de Deus é a voz de Jim Morrison. Leu na capa de uma revista que Jim Morrison era Deus, e Jim Morrison escrevia bem pra caralho. Uma vez uma amiga contou para ele que a coisa que mais excitava ela era ouvir uma música do Doors durante a madrugada. Já imaginou a garota sem roupas se masturbando enquanto Morrison canta "There's a killer on the road...", por mais estranho que isso seja. Vejam só, ela era gostosa, foi um pensamento agradável, não culpem ele, aposto que vocês já imaginaram pessoas em situações mais estranhas do que essa.

Trac. 01:19PM. Esta mesma amiga lhe contou uma vez que seu sonho era dar pro Jim Morrison, não importava ele ser um bêbado, brocha, estúpido, o que fosse. Ela queria dar para ele mesmo que fosse em sua fase gorda e nojenta, mesmo coberto com cicatrizes pelo corpo todo. Não precisava nem dar da forma mais tradicional possível. Uma chupada já seria um sonho, e assim ela poderia morrer feliz. Não queria mais nada da vida, virava freira se pudesse colocar a boca em volta da cabeça do pau do Jim Morrison. Não exatamente foram estas as palavras que ela utilizou, mas era isso que significava e isso que ela pensava quando, vejam só, se masturbava de madrugada enquanto Jim Morrison cantava "...his brain is squirmin' like a toad".

Trac. 01:20PM. Será que algum dia alguma guria pensaria nele desta forma? Morrer em paz após um, sei lá, beijo dele? Um toque mais atrevido? Uma brincadeira de mãos durante o cinema? Um beijo atrás do pescoço? Um abraço entre dois jovens usando poucas roupas? Uma língua girando em torno de um mamilo excitado? Um dedo abrindo as paredes molhadas de uma xoxota? Um dedo acariciando um cu mais ou menos limpo? Um pênis alisando quente as pregas de uma garota? Um jato de esperma na barriga da mesma? Um beijo de boa noite, uma noite onde passam juntos, um acordar para um café da manhã, e pronto... muito mais do que uma chupada no Jim Morrison. Muito menos do que uma garota espera dele, pois claro, ele não é o Jim Morrison, e nunca alguém ficaria satisfeito com o que for que ele fizesse. Ele é um bosta esperando um ônibus.

Trac. 01:21PM. E ainda esperando um ônibus para voltar para casa depois de mais um dia de estudos que não o levariam a lugar nenhum. Se demitiu do emprego para fazer o seu mestrado com promessas de um emprego melhor, estava acabando já suas obrigações, e até agora nada tinha aparecido. Estava ferrado, sem emprego, sem mulheres, sem bebidas, só tinha uma bela dor de cabeça decorrente dos dias sem dormir, dias para preencher o prazo dos trabalhos que pegava para conseguir dinheiro para pagar o aluguel. Dias que se perderam pois já nem sabia exatamente que dia era, ou melhor, agora sabia. Este era uma bosta perdido no tempo e em pleno sábado voltando para casa por ter ido na faculdade pensando que era segunda. Pelo menos tirou tempo para estudar o que precisava, mas diabos, como um cara consegue confundir sábado com segunda?

Trac. 01:22PM. Um minutos para pegar o ônibus, e os pombos continuavam ali, não os mesmos, iam e vinham e iam novamente. Bem como ele estava fazendo nos últimos meses. Indo e vindo e indo novamente, um ciclo sem fim em direção ao nada. Só conseguia enxergar seu próprio traseiro, e como não era cachorro nem ao menos isso era divertido, afinal não tinha a mínima vontade de se lamber, único propósito que conseguia pensar para alguém que está admirando o quão belo é o seu fudido traseiro. E o celular toca, é uma mensagem. Mais do que isso, é uma proposta. Mais do que isso, é uma chance de aperfeiçoamento como escritor. E justamente naquele dia ele havia colocado aquela cueca que tem um rasgo no lado esquerdo. Mas era um bosta mesmo...

Trac. 01:23PM. ...mas apesar de tudo era um bosta feliz, pronto para pegar um ônibus e logo mais comer alguém durante a noite, ou pelo menos tentar. E quem tenta está vivo, certo? Então ele estava vivo, não nas melhores das condições, não com uma vida perfeita, mas estava vivo. Não era otimista, pelo contrário, mas tentou apreciar este pensamento por um instante. Logo voltou ao copo meio vazio, mas naquele instante deixou de ser um bosta, e virou um pombo, comendo os restos de comida que estavam caídos naquele terminal de ônibus.

Um comentário:

m*.ella disse...

jim morrison é mesmo demais.
atitude.

há.
beijo pra teoria em pessoa.