domingo, 15 de novembro de 2009

Balde de ácido no estômago e pontadas no peito.


Acordei de madrugada na escuridão de meu quarto e ouvi o silêncio pleno. Aquilo foi a coisa mais bonita que alguém já disse para mim até hoje. Precisei interromper abrindo os olhos e colocando o pé para fora da cama. Mais um dia de serviço para cumprir. Eu trabalho como 'momento da vida humana'. Sou aquele momento em que o cara encontra com sua namorada, olha ela nos olhos e percebe que ela é a garota mais linda do mundo e que quer passar o resto dos dias junto com ela. Venho logo antes do momento em que ela conta para ele que está grávida do seu melhor amigo e que acabou tudo entre eles.

Eu queria ser agente secreto quando pequeno, mas nasci com um câncer terminal, então precisei escolher alguma profissão que envolvesse serviços rápidos, afinal, poderia morrer a qualquer momento. Estava entre trabalhar como um relâmpago, como o sucesso de uma celebridade instantânea ou como uma ejaculação precoce, mas de última hora o departamento das 'pequenas ilusões humanas' abriu vagas, e me candidatei ao trabalho de momento em que uma pessoa dá a primeira mordida em uma barra de chocolate. Acabei caindo neste meu serviço atual, e fico até feliz, melhor trazer a felicidade estando ligado a uma paixão por outro alguém do que ligado ao estômago de uma pessoa com problemas de excesso de comida e nervosismo. Se bem que dizem que chocolate também pode vir relacionado a uma paixão, mas no caso eu não viria junto com um sorriso, e mamãe sempre disse que eu era otimista.

Meu trabalho é bom, não tenho nada a reclamar, tirando que cada vez menos tenho serviço. As pessoas esqueceram o que é se doar a um momento bom com outras pessoas, e eu não falo de uma orgia, isso está fora do meu departamento. Só fico triste mesmo que já sinto os resquícios de meu fim, tudo o que é bom dura pouco, e meu câncer não tem cura. Deverão achar alguém que vá me substituir, e eu estava traumatizado com esta possibilidade até agora há pouco, mas hoje não, acordei ouvindo os sons do silêncio e pela primeira vez na vida senti a sinceridade que vem do nada e não promete nada também. Vou indo então para o trabalho, foi bom contar um pouco de minha vida, e não se esqueçam que a qualquer momento eu posso aparecer para vocês, só não se animem demais, minha vida é curta, e posso vir acompanhado de momentos não tão agradáveis, isso só vai depender de vocês. Como? Só posso dar uma dica, nunca usem meias azuis se estiverem viajando para a França.

9 comentários:

Thaís V. Manfrini disse...

Mamãe cuida das orgias.

Caliuj disse...

cada vez mais as pessoas esquecem de apreciar os pequenos momentos da vida, elas até curtem mas não percebem q aquele pequeno momento pode ser tão bom quanto viver a vida inteira feliz.
ótimo texto fly

m*.ella disse...

I'm offering you my body and you're offering me semantics.

hahaha..

-What the fuck'd you do that for?
-Two reasons. One, I hate it when people can't shut up about the stupid tabloid headlines.
And two, to prove a point. Title does not dictate behavior.

beijo, fly.
be good, good.
obrigada.

Tatah disse...

Pequenos momentos, sinceras atitudes. O silêncio é o melhor amigo de quem quer pensar, é o melhor ombro para chorar de quem precisa desabafar. A vida é curta, mais ainda para alguns. Ninguém sabe o que vai acontecer amanhã e nem depois, pra que se preocupar com tantas coisas banais? Mas não adianta isso não mudará. Da mesma forma que as pessoas não vão parar para pensar, o mundo continuará rodando, e a vida vai passando. Vai passando de uma forma que nem percebemos, coisas vão acontecendo e nem nos damos conta. Parece um piloto automático, onde você só cai em si quando acaba a bateria. E muitas dessas vezes, a bateria demora pra acabar, e aí então é tarde demais.

Yuri disse...

Que coisa linda, viu? A frase inicial gritou em mim. E o resto foi muito digno.

Modorra Burlesca disse...

Quero mais da Trilogia do Desespero.

gustavo beirão disse...

lindo demais isso aqui

@samambaia_ disse...

Belíssimo texto Fly. Não deixe que os fantasmas inseguros atormentem - com extrema algazarra - o teu silêncio. Nossas obras são atos efêmeros, mas as impressões são perenes, tomam para si o seu lugar no inconsciente coletivo. Quanto à morte, poderia divagar, mas deixo que Sêneca se expresse: “Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte.”

Louize disse...

Ótimo texto. Shopenhauer já diria: "Cada vez que respiramos, afastamos a morte que nos ameaça.(...)No final, ela vence, pois desde o nascimento esse é o nosso destino e ela brinca um pouco com sua presa antes de comê-la. Mas continuamos vivendo com grande interesse e inquietação pelo maior tempo possível, da mesma forma que sopramos uma bolha de sabão até ficar bem grande, embora tenhamos absoluta certeza de que vai estourar."

é mais animador sentir os pés no chão ao acordar.