sexta-feira, 13 de novembro de 2009

1. O Morto. (Trilogia do Desespero)


Nós, humanos modernos, vivemos numa ilusória nuvem de bons preceitos e morais. O homem costumava ter válvulas de escape para sua raiva e seus podres no passado, onde a violência era cotidiana. Hoje continuamos vivendo assim, mesmo que de forma escondida ou fantasiada. É inaceitável buscar o prazer em torturas aos nossos semelhantes, você não pode, ou pelo menos não publicamente, pegar alguém e causar a dor, bater nele até virar uma massa disforme de sangue e carne, ou em menor nível é inadmissível torturas sexuais, ou quem sabe psicológicas. Inadequado e supostamente indesejado, somos humanos, não monstros. Mas vamos ao cinema para assistir pessoas sendo massacradas, não vamos? Em uma tela enorme a pornografia, a desgraça, a tortura, a violência, tudo pode. Não deves sair por aí em atos imorais de sadismo e masoquismo extremos misturados a esperma e sangue, mas na TV... Na TV podes assistir isso, estás na segurança de seu lar, é apenas entretenimento. Por pior que seja a atrocidade vista ali, é ficção, é permitido. Esta ficção pode ser feita na vida real também, mas não deixe te pegarem.

Com os anjos é a mesma coisa. Anjos, criaturas divinas, seres puros e perfeitos, besteira. Os anjos vivem sobre máscaras como a gente. Enquanto protetores são bondosos e estão lá cumprindo seu papel, serventes de Deus, ou seja lá como você chame isso. Seres superiores, não desejam o mal à ninguém, pelo menos não publicamente. Ficção para eles portanto é pouco, já passaram deste nível de prazer, eles querem que seus espíritos tenham um banquete mais digno, passaram da simples percepção do irreal como alimento para seus desejos mais bizarros, até mesmo pois estes desejos não estão ligados aos seus órgãos sexuais como os fracos humanos, eles carregam um desejo muito maior da verdade, para eles não é questão de não deixarem que os peguem, é questão da necessidade disso, e por isso carregam dentro de suas batas celestiais uma seleção variada de joguetes próprios para diversão descompromissada. Um dos mais fracos em malignidade, mas também um dos mais divertidos em contrapartida se chama "Sacanear o Suicida". Anjos são justos, e mesmo que estejam desejando esta satisfação, sabem bem quem escolher. Esta história aconteceu com um amigo de um amigo meu, e acaba mais ou menos assim.

Tu que agora estás neste túmulo, bem arrumado, limpo e maquiado, tu que ontem levou um blefe como verdade e caiu em uma armadilha fatal, achou errado o que te fizeram, se matou em covardia. Acostumado a controlar, perdeu a chance e agora estás aí, pagando por tua tolice, recebendo a paz de troco. Acha que acabou? A morte te pareceu mais agradável do que conviver com a vergonha da queda, não é mesmo? Tu que já na velhice usava de teu império para destronar reis, selar rainhas, causar o pior possível aos príncipes e princesas da modernidade. Seja rico ou pobre, não importava, tomava o que te interessava, ou seja, tomava qualquer coisa em troca de prestígio. Nem o dinheiro mais importava, não naquele ponto, alguns anos atrás importava muito. Era o dinheiro que te salvava dos crimes. Era o dinheiro que te livrava dos males que tu causavas. Era o dinheiro que comprava aqueles risos que ganhavas de presente. Era o dinheiro que disparava aqueles flashes em tua cara. O dinheiro que excitava aquelas putinhas que poderiam ser tua filha que pegavas enquanto tua mulher estava em casa achando que estavas em reunião de negócio. Era o dinheiro que comprava este pensamento de tua mulher, ou pensas que ela não sabia o que estavas fazendo? Ou pensas que ela estava realmente em casa te esperando? Era o dinheiro que pagava o taxi que tua mulher pegava, que pagava a cocaína que tua mulher cheirava, que pagava o lubrificante anal que os amantes de tua mulher pincelavam naquele rabo cheirando à jasmins e óleos essenciais. Era o dinheiro que comprava o coração frio que carregas no peito ao não se importar nem um pouco com isso.

Antes disso era o dinheiro que tu só recentemente tinhas em folga que comprou aquela viagem de luxo para ti e tua esposa. E aqueles abraços sinceros dos funcionários do hotel. Por este dinheiro tu fizeste algumas trapaças, tirou o sono da noite de diversas pessoas. Envenenou outras mais das mais diversas formas que possas imaginar. Mas vivemos em um mundo onde o maior engole o menor, e não há nada de errado nisso, não é mesmo? O que os olhos não vêem o coração não sente. Por falar no coração, depois de se estressar tanto pelo dinheiro, foi o dinheiro que te deu um coração novo de metal escovado, afinal aquele antigo e imprestável feito de carne e músculos não seria capaz de agüentar por muito tempo as preocupações que engolias todos os dias com a mais cara das champagnes, não que soubesse diferenciar estas daqueles espumantes vagabundos que davas para teus funcionários de fim de ano, mas precisas manter o padrão, beber gelado e mijar quente, e que este mijo seja composto por pelo menos 5% de alguma substância que custe mais do que 500 dólares uma garrafa.

Saído da faculdade de advocacia virou pupilo de um trambiqueiro e herdou dele os truques, os funcionários e a sua filha do meio. Tu eras o braço direito dele, e o teu braço direito foi a ruína dele também, pois foi com este braço que tu segurou o revólver que disparou o tiro fatal para teu mestre. Depois este mesmo braço que abraçou a viúva dele em sinal de pesames, horas antes de abraçares novamente ela em sinal de gozo egoísta, afinal ela não era exatamente atraente, mas tinhas que acabar sua vingança contra aquele que te adotou como quase um filho e com isso te deu pontadas de inveja. Agora a vingança estava completa, e não foi de todo mal, admita, ela tinha uma bela bunda.

Traições à tua namorada. Bebedeiras pagas com o dinheiro que tu roubaste da bolsa de tua mãe. Cigarros que tu roubastes do maço de teu pai. Ações tolas que tu fizeste e armou para que tua irmã levasse a culpa. Colas no primário. Brigas com os coleguinhas. Palavrões no prézinho. Tu que nasceu do ventre de uma mulher religiosa e de um honrado homem de família, o que tens agora? Uma vida fabulosa que será recontada como maravilhosa nos livros de história da administração. Tens um monte de desregramentos, infidelidades, desonras, crimes, desprezos, e tens uma corda no pescoço. Agora tens um terno novo que vais usar pelo resto da morte. Tens a oportunidade de brincar no fabuloso jogo dos anjos, és o convidado da noite no "Sacanear o Suicida". Tu foste ateu a vida toda e zombava de tua mãe quando ela vinha com palavras de salvação e com as histórias bestas sobre anjos, agora veja só, é um anjo que conjura a vida dentro de teu caixão de ouro. Um anjo que vai com seus poderes te fazer reviver a vida de cada uma das pessoas que tu sacaneou. Parabéns, agora é você que será sacaneado enquanto sente o que todos eles sentiram, seus frágeis sentidos serão reativados, teu coração deixa de ser de metal e vira músculo novamente para que sintas nele o desespero destes que tu pouco se importaste durante a vida toda. Tua carne dói e sangra mesmo morta, pois ao mesmo tempo em que teu cérebro assume a culpa por tudo o que arquitetou em vida, os vermes que penetram em teu caixão estarão tendo um banquete da mais pura podridão em forma de homem. É um banquete para os anjos, e um banquete para os vermes, e se tu fores realmente sádico um banquete para ti mesmo. Consegues sentir o prazer no sofrimento alheio, e no teu próprio, consegues também? Tu não eras sádico, era imbecil, era um estúpido escroto, era um nada, um verme também, toma teu banquete traste imundo, não usa da armadura que os fracos gostam de utilizar sempre, - Sou humano - tu és humano e por isso mesmo teve a chance de lutar contra teu lado negro e fazer algo de bom para o mundo. Vais fazer agora algo bom por estes vermes e bom por estes anjos. O mal e o bem se banqueteando de tua carne repetidamente, não vão deixar que ela acabe, vais ser mordido e digerido diversas e diversas vezes até que tenhas tua tortura completa. E então eles vão jogar contigo e novamente, e novamente, e novamente, até que cansem, pois tu não cansou, tu fugiu de tua culpa. Quando você perdeu tudo resolveu que não merecia mais morrer. Quando teu falo ego foi castrado e tua virilidade caiu num poço de insegurança tu em vez de se prostrar como o maioral como fez a vida toda resolveu simplesmente fugir. Agora teu dinheiro que te prende. Teu caixão será tua prisão simbólica. Teus carrascos irão se divertir em cima de teus prazeres, irão dançar sobre teu corpo, irão beber de tua alma que não custa mais do que 500 dólares, mas custa mais do que 500.000 gritos e lágrimas e pesadelos dos que passaram pelo teu caminho. Consegues sorrir agora? Espero que sim, o show está apenas começando. Tu que foste a esperança de teus pais, o menino que eles queriam ver crescer e fazer algo de importante, que eles deram amor sem pedir nada em troca, que eles tentaram educar da melhor forma possível, tu que foste fraco sempre e deixou tuas escrúpulas te dominarem, tu que foi fraco e não aceitou que sempre há uma reação, agora receberas a força dela como pequenas alfinetadas por toda tua pós-morte. Este jogo se chama "Sacaneie o Suicida", e como tu sempre quis ser a atração principal em vida, serás a atração principal também em morte.

Se tiver alguma reclamação faça agora, mas não pense em pedir perdão, pois isso só alguns poucos merecem, e o correto a se fazer nem sempre é o mais agradável. Podes achar que esta pena é grande demais, mas repense isso, pois só vais receber o que te pertence, pois os anjos estão, sim, fazendo isso para satisfazer os próprios desejos, mas não se esqueça que acima de tudo eles sempre serão justos.

Um comentário:

Yuri disse...

Bom conto. Dá pra sentir o ódio o rancor escorrendo pelo monitor. A parte sobre ser sádico vendo gente sofrendo na TV/Cinema lembrou-me de Filmefobia a que assisti hoje, extremamente chocante trabalho. Caso encontres, vale a pena. Não esteticamente, mas... deve dar uns nós na garganta, e umas risadas do Mojica. :)