quinta-feira, 3 de setembro de 2009

insone.


Rockabilly, é isso que ele está ouvindo neste momento.
Sai do banheiro, boca limpa, dentes escovados. Não mais poderiam dizer que passou as últimas horas bebendo whisky.
Vai na cozinha, e prepara um pouco de café, precioso líquido que agora se faz necessário.
Agora e para todo o sempre, até a hora de vossa morte.
Amém, disseram para ele quando novo. Ele acreditou, e mentindo estaria se falasse que não pensa mais no assunto.
O tolo está pensando neste momento. Pensando em amor, em amar, e também pensando se vai colocar açúcar no seu café.
Não coloca, já chega a cafeína, não quer mais um estimulante ali, afinal o "vagabundo" tem que trabalhar amanhã.
Mas ainda é hoje, troca o disco, agora ele vai para um jazz nervoso, representação de seu interior neste momento.
Quer parar de pensar em besteiras, mas se vê sem sono, sem motivação, sem...
Sem tudo o que deveria estar com, e com tudo o que deveria estar sem. Um inverso do reverso. Mas isso não seria o correto?
Desistiu de pedir desculpas por ter problemas, todos têm, por qual motivo implicam de ele ter os dele, vejam que bela coleção.
Pega um papel e começa a rabiscar um desenho. Não desenha porcaria nenhuma, mas acha que desenha.
Deveria ficar só nos textos, mas cansou de tentar mudar o mundo, faz músicas então, mas nisso não é o melhor no que faz.
Uma noite insone não é simplesmente passar a madrugada acordado – para isso cabem várias outras designações.
E as horas passam, e quando vê o dia já está nascendo. Pena que é só no filme que passa na TV que deixou no mudo.
Lá fora ainda é noite, e vai ficar assim por um bom tempo. Na mente de quem tem certeza, as horas demoram a passar.
A depressão aumenta, a dor no estômago também. Te falei que ele está com dor no estômago? No estômago e na cabeça.
Não toma uma aspirina pois elas não adiantam mais. Então pega lá mais uma caneca de café, entorna, e se joga na cama.
Olha para o teto e começa a pensar que amanhã tem que acordar cedo. O que adianta pensar nisso agora?
Queria não estar sozinho na cama. Ou será que é só mentira dele? Será que ele não se coloca nestas situações por prazer?
Isso seria masoquismo, e como bom poeta, depressão sim, prazer na dor jamais, ou pelo menos mantenha a pose que não.
Reclame. Ele reclama. Sinta. Ele sente. Ame. Ele ama. Viva. Ele vive.
Morra. Ele não morre, ainda não é a hora. Nosso herói pensa diversas vezes ao dia como será o amanhã, mas ele só tem a certeza do hoje, ou de como queria que fosse.
Mas não é como ele queria. E ele entende isso. Mas não perde as esperanças, a qualquer hora as coisas podem mudar.
A qualquer hora a cama pode não estar mais vazia. A qualquer hora os livros não serão mais rascunhos.
Poderá significar algo. A qualquer hora ele pode estar morto. Mas agora está vivo, e continua confiante em si mesmo.
Escova os dentes novamente. Agora com um sorriso irônico nos lábios, comendo o recheio das lembranças.
Colocando de volta no pacote as bolachas, limpando o canto da boca sujo de desejo, respirando ainda com uma certa dor interna, não do estômago, mas sim da ansiedade pelas boas novas. Aquelas que farão ele se contentar até que ache um novo motivo para voltar a ser chato.
E ele terá. Está chegando logo ali, junto com a Insônia que foi buscar uma pizza mas já está de volta.
Boca limpa novamente, mas a mente disfarçou por um momento, mas não está bem. Novos pensamentos, novas horas lentas correndo.
Enquanto os olhos sangram, o coração continua batendo, e tudo fará sentido no fim da noite...

[essa é uma obra de ficção, apesar de tudo ter acontecido em alguma vida real.]

14 comentários:

Felipe Figma disse...

Gostei bastante do texto, acho que o melhor até agora. No fim só acho que tu procuras muitos sentidos e talvez respostas. Não sei se tudo na vida precisa ser pensado, raciocinado. E sei que tu é adepto ao "sentir" quando não for hora de pensar.

Ok, eu viagei agora.

Mas gostei do texto!

Yuri disse...

Só posso dizer que me afoguei em algum ponto do texto. Tão familiar.

\o/~ disse...

Acho que o comentário do 'familiar' ali, só serve pra procurarmos mais as tals respostar que o outro falou. Porque meldels.
ok.
belo texto, triste insonia.

Jefferson disse...

É interessante como a solidão da noite nos desencadeia uma série de pensamentos que em outras ocasiões dificilmente ocorreriam. Não sei se com todos é assim (acredito que não) mas, para as pessoas mais espiritualizadas conseguem tirar muito proveito da insônia. É realmente surreal os pensamentos que podem aparecer.

De certa forma deu até saudade de passar aquela noite em claro.

Ótimo texto, adorei

Tatah disse...

"Enquanto os olhos sangram, o coração continua batendo, e tudo fará sentido no fim da noite..."
Esse trecho diz tudo. E posso dizer que minha madrugada de ontem foi parecida com alguns trechos. Como sempre teus textos expressivos me fazem viajar pelo instante em que leio. Vou a fundo e consigo entender exatamente o que queres dizer, não sei se porque passo por isso constantemente ou se as pessoas sempre têm algo em comum uma com as outras. É tão difícil imaginar o quanto somos influenciados a fazer/sentir/querer, coisas que foram julgadas por alguma pessoa nesse mundo, importantes. Coisas que nem precisavam existir, mas elas existem e hoje fazem total diferença, talvez a maior de todas.

Lindo o texto, como todos os outros.

Coruja disse...

A insônia geralmente começa com algum pensamento. Geralmente é um resmungo chato de algum fato que não deveria ter acontecido no presente dia.

Este fato geralmente traz uma tonelada de outros sentimentos e pensamentos que só nos fazem despertar mais.

Mas deixo um conselho para todos que sofrem desse mal.

Aproveitem suas noites de insônia amigos. Um dia elas desaparecem e vocês sentirão falta delas.

T disse...

Coisa linda. Só que-né, eu não vejo poetas contemporânes prezando por poses tão ortodoxas. Você é mais tradicional do que aparenta, Fly. ^^"

T disse...

*Contemporâneos.

Boo disse...

Te achei por um scrap teu no meu last. Acredito que tu é o que tu ouve, acredito que seja uma pessoa legal. Bacana teu blog, te linkei.

Boo disse...

O primeiro erro da minha mãe foi esse, me presentear com um Kerouac. agora não tem mais volta. conhece bukowski?

Natasha disse...

Adorei. "Agora com um sorriso irônico nos lábios, comendo o recheio das lembranças." Trecho perfeito. Muito bom!

Boo disse...

Opa, vou catar algo sobre sim! Me adiciona no msn para ême S enicarmos mais, ok? eudigoboo@hotmail.com

Falar por comentário não é bem o jeito mais dinâmico de se conversar com alguém. hahaha

Sergix disse...

Nossa, nessa elite de blog's conhecidos, pela primeira vez me senti realmente emocionado com um post, já li muitos dos seus textos, mas este me tocou profundamente, talvez por se assemelhar a minha coinciência e devaneios na madrugada.

Muitos já perceberam que as respostas para as nossas perguntas nunca viram, e falo por mim, mas só posso continuar imaginando o impossível e tendo a esperança de que o mundo é muito mais do que ele se propõem a ser.

Abraços Fly

CiLL disse...

eu fiz um "textinho" um tempo atrás sobre café ...
e por incrível que pareça hoje eu tô aqui ouvindo meus cds já mudei diversas vezes e nada me agrada ... acho que estou pra sentir e nada mais ... gostei do seu blog ... tô retribuindo a visita;) passarei aqui mais vezes...claro!