sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Ele está se tornando melhor, não veem?


Não gostaria de estar aqui, mas ia me sentir mal pelo resto da vida se não fizesse esta visita. Estive afastado de minha cidade por tempos, e quando retorno fico sabendo das notícias. Meu velho amigo cedeu ao que já demonstrava ser seu caminho, não aguentou a pressão, e foi declarado humano. Esta visita é o mínimo que eu poderia fazer por ele. Engoli o medo e resolvi me dirigir ao Mundo Real. Agora é tarde para desistir, já fecharam as portas atrás de mim, sempre em frente como diria meu pai. Vejam só, então este é o pátio da Realidade, todos estes seres sentados, ou andando, com suas expressões de preocupações, seus sentimentos verdadeiros que só duram o tempo de serem frustrados por outro alguém com também verdadeiros sentimentos. Todas estas pessoas saindo de seus quartos para fazer algo neste local. Uns brincam de médico, outros brincam de artistas, é triste. Então olho para a direita e está lá, meu amigo, velho Conformismo. Não mudou nada, ainda continua com o sorriso sereno de quem busca sempre a opção mais fácil. Sinto pena dele, e de todos que estão aqui, sinto como se...

- Amigo! É você.

Sim, sou eu. Ele me reconheceu e está vindo para cá. Não consigo falar nada, mesmo tendo muito para dizer. Seu rosto me rouba as energias, portanto escuto. Fala.

- Vejo que estás assustado. Não é para menos, achei que nunca iria vir para cá, mas veja só, estou preso com todos os outros. Todos estão aqui, e não sei, acho que me resta um pingo de ousadia e visão, tenho medo de perder isso logo. Por enquanto ainda te vejo e te entendo, mas os outros aqui, todos, caramba, não sei nem como dizer. Todos aqui vivem seus dias achando que isso é nosso destino e nada pode ser feito. Eu que me chamo Conformismo pareço ser o único que ainda mantém a insanidade em dia, mesmo que debilitada. Mas como já disse, logo devo perder. Posso ser sincero contigo?

Pode.

- Não luto mais contra isso. Desisti de mudar e aceito meu nome. Cansei de defender que não esperassem que lhes dissessem o que fazer, cansei de viver a vida por mim mesmo. Temos regras aqui, e seres mais poderosos. Os guardas que te guiaram aqui para dentro, por exemplo. Como viver lutando pelo que acredito se isso parece desagradar tantos outros? Você ainda usa sua imaginação, não é mesmo? A minha se esgotou. Tentei ser perfeito, e acabei aqui nesta realidade. Todos aqui tentam ser perfeitos, e mesmo que pensem que estão por si, a perfeição já vem de certo ideal externo.

Não sou perfeito, nem quero. Não entendo o motivo pelo qual queres ser perfeito amigo, seja você mesmo, perfeito na sua imperfeição...

- Comecei a pensar que estava mesmo sendo perfeito, a renegar o amador, queria profissionalismo, deixei a graça de lado, queria risadas precisas e fabricadas. Tive medo de errar, entrei na perfeição. “Bem-vindo ao Mundo Real”, me falaram. Sorri para isso, os guardas então me pegaram. Os chefes me deram uma entrada para cá. Tenho meu quarto, fiz família aqui
dentro, está tudo tão bem.

Espera, o discurso está mudando. Ele falou que não queria perder sua insanidade, mas a cada momento parece estar mais seguro do que fala. Ele está...

- Estou me sentindo realizado. Logo estarei ali sentado esperando minha morte. Veja, minha vida é perfeita aqui dentro.

Não.

- Sim, tenho tudo o que quero. Temos TV aqui dentro, o que mais precisamos?

Viver?

- Não faço mais besteiras, sou um homem correto e reabilitado. Orgulho-me de meu conforto. Tantas vezes disse sim, agora o não me seduz. Não tentar coisas novas, para quê? Vamos morrer um dia. Melhor fazer o certo, seguir os passos já traçados, inovação é para os loucos.

Qual o problema em ser louco?

- Aqui neste mundo real as coisas são tão mais fáceis. Resolvo meus problemas dando um passo para trás, não encarando o novo, o antigo era funcional até certo ponto. Você fica lá fora, naquele hospício, com sua maldita liberdade, tendo que lidar com situações inéditas, e com isso os problemas são maiores.

Maiores, mas quanto maior o problema, maior a recompensa. Prefiro tomar decisões firmes e lutar por elas a me voltar ao mais fácil, ter também problemas, mas não evoluir com eles. Amigo, o que ocorre contigo? Desde que cheguei você está mudando aos poucos. Será que minha demência te assusta e acelera sua queda para a permanente estadia aqui no Mundo Real?

- Realidade!

Loucura!

- Conforto!

Nonsense!

- E tu ficas aí com este semblante de terror, não fala comigo. Tu és louco?

Sou. Juro que queria falar contigo, mas esta tua certeza de felicidade que não passa de um disfarce para teus profundos pesares me impede de comunicar o que sinto. Esta tua normalidade não condiz com minha complexidade que te tenta, mas te afasta. Como vieram te pegar? Trancar aqui. Estavas ainda com um brilho no olhar quando cheguei, mas do nada só vejo uma fumaça cinza saindo de teus poros. Teu colorido não me parece mais vívido, por mais que se eu te perguntar vais estar radiante. Não creio que minha mão tenha forças para te arrastar daqui, nem quero tentar. Não me diz respeito a tua normalidade. Você teria que quebrar ela por conta própria, mas teu nome é Conformismo, isso pouco me conforta.

- Certo, não vais falar.

Não posso, quando falo faço lambança, e isso seria demais para ti. Não és livre para errar, as falhas te machucam mais do que espinhos. Entendi que queres ser perfeito, o que resta para mim além de torcer que percebas a beleza que há na possibilidade de falhar? Com esta possibilidade os acertos se fazem muito mais deliciosos.

- O que mesmo tu falavas sobre viver?

Viver é experimentar. Dar uma chance a uma nova possibilidade. Tem a ver com trabalhar com o que você tem na sua frente e transformar tudo de embaraçoso, medonho e estúpido da sua vida em pontos a favor.

- Não importa. Adeus.

Adeus. Não poderia mais ficar neste local mesmo. Já notaram que minha presença aqui é um mal para esta organização tão bem disfarçada como o correto. Mais alguns minutos e os que cuidam dela viriam pessoalmente me expulsar. De volta ao espaço aberto, sem paredes, vou achar meus semelhantes e juntos vamos rumo ao infinito. Conhecer novos lugares. Sentir novas sensações. Se abrir a novos amores. Superar as velhas dores. Estou livre e isso é que importa. Estou vivo e não vejo a hora de experimentar o literal deste presente, no futuro, com o que aprendi no passado. Guardo minhas lembranças na mala que sempre me acompanha, e começo a caminhar. Dou a mão a quem vem ao lado. O dia está lindo. Olho para trás e sinto falta do Conformismo, mas sei que ele vai ficar bem. Lá dentro da Realidade existem muitas pessoas que precisam dele, não as culpo, só espero que um dia elas consigam abrir os olhos e ver o quão belo é aqui fora. Continuo andando, resolvo cantarolar uma velha canção sobre tristeza, pois não há nada de errado com ela, como muitos pensam. No final sei que estarei alegre. Venceremos! E a isso brindaremos! E beberemos! Saúde!

7 comentários:

Diego Moreau disse...

Suas madrugadas rendem. Parabéns!

T disse...

E quando as madrugadas não rendem é porque a Thara tomou preciosas horas ao celular, mas enfim, mais uma boa ação do Fly. Também a essas boas ações brindaremos. Ahh, esse blog me dá novos fôlegos pra confiar nos espíritos livres contemporâneos. Agradeço por todas essas coisas! Que ele mantenha a característica insanidade já que ela é absolutamente linda...

marcella disse...

que coisa linda.
muito linda.

muito bem, fly.

@samambaia_ disse...

É assim, junstamente assim que caminho, como um cão vagabundo, errante, pulando no escuro do dia e nas incertezas das verdades impostas. O conformismo? É obliterante.

Thaís V. Manfrini disse...

Se bem que tudo é obliterante. 'Tá, parei.

Léo Zardo disse...

Lindo o texto!
Ao ler, lembrei do meu pai. Um homem conformado com sua vidinha medíocre, digno de pena. Tentar não ficar parecido com ele já afugenta o conformismo de mim! hahaha

Abraço

Sergix disse...

É muito difícil ficar sem o conformismo, mas assim que abrimos as portas e resolvemos ir em frente tudo ficará melhor. Ás vezes ainda me vejo pensando nele, mas isso passa, ainda bem.

Gosto do seu jeito de escrever. Parabéns cara!!!