quarta-feira, 15 de julho de 2009

Dispositivos ópticos para dispositivos humanos.


- Posso saber o motivo pelo qual não estás copiando a matéria?
- Não consigo ver. Posso sentar mais na frente?
- Temos espelho de classe e tu sabe disso. Como assim não consegue ver?
- Não consigo. Sento na última carteira e não consigo ver o que está escrito no quadro.
- Estás dando desculpas. Ou não consegue ver mesmo?
- Fica tudo borrado.
- Toma, leva este bilhete para a tua mãe.

E assim começou. Depois fui num médico que me fez alguns testes e acabou com a frase "Você precisa usar óculos"; Preciso mesmo? E se eu sentasse mais na frente? Espelho de classe não é somente uma forma de melhor dispor e catalogar as pessoas numa sala de aula? E se eu pudesse me levantar e olhar de perto o quadro? E vejam só, eu não estava com dificuldade nenhuma na aula. Notas boas, sempre ouvindo o que era dito, lições e trabalhos sendo feitos, e ainda me sobrava tempo para ler gibis durante as aulas. Eu precisava mesmo de óculos?

Acordei hoje, peguei esta coisa com armação e lente, coloquei no meu rosto, apoiado nas orelhas e no nariz, como manda as escrituras. Abri a janela e na frente do meu portão estava passando um cego. Contei como comecei a usar óculos, agora este evento foi o que originou estes pensamentos sobre estas coisas todas. Tenho alguns graus de miopia, e poucos de astigmatismo. Posso usar esta ferramente criada para fazer eu enxergar o mundo como todos os demais, bonitinho, formas bem definidas, cores vivas, tudo igual. Se escreverem de tal forma, verei de tal forma, afinal, preciso ver assim, não preciso? Precisar é algo tão forte, como se minha vida dependesse disso, sem os óculos não sou ninguém, então o que será que é o cego? Se eu preciso tanto assim de óculos, o cego então seria uma marginalizado, incapaz, ser que não tem a mais básica condição de existência?

Tirei os óculos, e comecei meu dia. Almoço, ir até o ponto de ônibus, viagem até o centro, caminhada até o trabalho. Os primeiros 10 minutos sem óculos foram um tanto quanto irritantes, mas depois acostumei, e tudo fez sentido. Quando troco de óculos demoro pelo menos uma semana para me acostumar bem com as novas lentes, mas voltar ao meu natural foi tão rápido. Cheguei vivo ao trabalho, nem ao menos tropecei. Meu primeiro dia com estas lentes novas me fizeram cair algumas vezes na escada com a pressa e a profundidade alterada. Mas eu preciso de óculos. Preciso para ler o nome das ruas nas placas, pois caminhar por aí, seguindo o seu caminho, chegando ao se quer sem indicações exatas é perigoso. Você precisa ler os rótulos e fazer tudo da forma mais organizada possível. Coitados daqueles que anos atrás tinham que viver as ruas e os caminhos para chegarem aonde querem. Mas eu preciso de óculos. Preciso para ler as propagandas que me dirão o que comprar, as camisetas que me irão já catalogar as pessoas pelos seus estilos. Conversar com elas para quê? Você pode olhar a marca de tênis que ela está usando, o corte de cabelo, e vais saber exatamente quem ela é. Melhor ainda, coloque os óculos para ver bem todas as comunidades do Orkut dela. Você não precisa falar comigo para saber o que ouço, podes entrar numa de minhas redes sociais e ver em quais comunidades estou, na minhas fotos as camisetas das bandas que ouço, ler em algum site a resenha de algo que fiz. Contato já não importa mais, com meus óculos eu vejo tudo isso claramente, por aí. Mas eu preciso de óculos, pois as fábricas de óculos precisam do meu dinheiro, os médicos precisam do meu dinheiro, e eu preciso ganhar este dinheiro, servindo a uma empresa que precisa de mim, para eles ganharem dinheiro, e ajudarem os seus médicos e suas fábricas de óculos.

Isso não é uma rebelião contra meus óculos, adoro eles. Só estou me questionando sobre o que precisamos mesmo. Não quero dar uma de anarquista mandando queimar os discos, os sutiãs, e os óculos. Estou só a pensar nestas questões todas, se é que você me entende. este texto não tem motivação científica nenhuma, muito menos objetivo de provar nada. É apenas uma reprodução já decupada do meu fluxo de pensamentos. O resultado final como sempre ficou meio confuso, e faltando diversos pontos que pensei nesta minha caminhada vendo o mundo de minha forma em particular, com minha visão distorcida, vendo as pessoas distorcidas. Será que estavam distorcidas mesmo? Não observando textos, idéias impressas, formas estabelecidas, eu vi as pessoas andando. Anônimos. Não reparei em seus detalhes, marcas, desleixos, passei só em me preocupar em não esbarrar nelas. Mas percebi que por mais idiota que alguém te pareça normalmente, são pessoas ainda, com suas complexidades, toda a aparente idiotice vem de algum lugar, tem uma formação, cada pessoa tem sua história e motivos para fazer isso ou aquilo. As vezes estes motivos são delas próprias, as vezes do destino, as vezes das manipulações diárias que os grandes tentam nos forças. Por grandes não falo em tamanho, mas nos dogmas. Os grandes são as regras, os caminhos já estabelecidos, normas e leis, falsas necessidades, modos de agir, morais bem vistas, bons sentimentos, caráter já definido em sua sociedade, mídias e veículos, influências familiares, gerações e gerações, e claro, a necessidade de utilizar óculos.

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Radiohead -Fitter Happier

Fitter, happier, more productive,
comfortable,
not drinking too much,
regular exercise at the gym
(3 days a week),
getting on better with your associate employee contemporaries,
at ease,
eating well
(no more microwave dinners and saturated fats),
a patient better driver,
a safer car
(baby smiling in back seat),
sleeping well
(no bad dreams),
no paranoia,
careful to all animals
(never washing spiders down the plughole),
keep in contact with old friends
(enjoy a drink now and then),
will frequently check credit at (moral) bank (hole in the wall),
favors for favors,
fond but not in love,
charity standing orders,
on Sundays ring road supermarket
(no killing moths or putting boiling water on the ants),
car wash
(also on Sundays),
no longer afraid of the dark or midday shadows
nothing so ridiculously teenage and desperate,
nothing so childish - at a better pace,
slower and more calculated,
no chance of escape,
now self-employed,
concerned (but powerless),
an empowered and informed member of society
(pragmatism not idealism),
will not cry in public,
less chance of illness,
tires that grip in the wet
(shot of baby strapped in back seat),
a good memory,
still cries at a good film,
still kisses with saliva,
no longer empty and frantic like a cat tied to a stick,
that's driven into frozen winter shit
(the ability to laugh at weakness),
calm,
fitter,
healthier and more productive
a pig in a cage on antibiotics.

Sample looping in background: [This is the Panic Office, section nine-seventeen may have been hit. Activate the following procedure.]

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Para entender este texto você precisa saber inglês? Não precisa, você acha fácil a tradução dele na internet. E para entender outras músicas que postei aqui no blog e não achou tradução? Ou outras músicas qualquer? Me disponho a traduzir qualquer música para quem quiser, use os comentários. Não sei diversas línguas e adoraria que pessoas que as conhecem me ajudassem traduzindo para mim. Cooperação é algo bacana não? Se precisamos de algo é a vontade de transmitir idéias originais e assim mudar o mundo. Não que efetivamente iremos mudar algo, não é esta a meta final, a meta a final é ter a vontade, e dar o melhor de si por ela. E a melhor forma de evoluir algo, é começar a evoluir por si mesmo, sem forçar, mas novamente dando o melhor de si. Quem tem bom espírito não precisa de nada realmente, pois os de bom espírito vivem, e isso já é tudo o que precisamos para mudar e assim evoluir. Excelsior!

10 comentários:

Diego Moreau disse...

Eu uso óculos. E leio o Fly. Tenho dito.

@samambaia_ disse...

"Cada um tem de mim exatamente o que cativou, e cada um é responsável pelo que cativou, não suporto falsidade e mentira, a VERDADE pode machucar, mas é sempre mais digna. Bom mesmo é ir a luta com determinação, abraçar a vida e viver com paixão. Perder com classe e vencer com ousadia, pois o triunfo pertence a quem se atreve e a vida é muito para ser insignificante. Eu faço e abuso da FELICIDADE e não desisto dos meus sonhos. O mundo está nas mãos daqueles que tem coragem de sonhar, correr o risco de viver seus sonhos."
Coragem é não buscar desculpas para ser feliz!

Charles Chaplin

fábio bocanegra. disse...

nossa.

certos momentos nauseante, certos momentos como o bom Cassady.

é Fly, certamente há futuro para estes filhos do Sol, mas não se esqueça

não tenha medo de mostrá-los no espelho.

Satanizante disse...

Tá ai pra nós nos comunicarmos...
beijunda!

Cátia disse...

porque PRECISAR é mesmo um verbo muito forte.
wow!

Thays Costa disse...

Como pode eu não ter teu blog adicionado? haha

Agora eu também leio o Fly :)

Léo Zardo disse...

Eu deveria usar óculos, mas raramente uso. A frase "Não reparei em seus detalhes, marcas, desleixos, passei só em me preocupar em não esbarrar nelas" é perfeita para mim, quando estou usando óculos e vejo a "realidade", me faz ver todas as imperfeições que não via de longe. E me assusto um pouco, às vezes.
Esse texto me fez lembrar do documentário "Janela da Alma" (do Walter Carvalho e João Jardim).

RT Tatah: Agora eu também leio o Fly.

Mila disse...

Eu preciso de óculos, segundo meu médico. Mas meu subconsciente diz que enxergo perfeitamente o mundo. Mesmo com toda esta miopia e astigmatismo eu posso ver o que muitos ignoram. Não, eu não preciso de óculos. Uso porque gosto apenas. :)

The Dancer disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
The Dancer disse...

quisera todos nós dirpirmos de nossas lentes de aumento com que fazemos o outro passar por detalhadas e ridiculas inspeções de aprovação ou não aprovação.

ridiculas, torpes, rasas.
pq realmente espero que não seja assim tão rasa que possa ser entendida por pequenas frases sem sentido que escrevo, filmes que assisto, perfumes que uso. triste seria.mto triste.

ganhou uma leitora.
;*