terça-feira, 16 de junho de 2009

Quem?

Me alimento da desilusão. Não é meu prato preferido, mas é o que melhor satisfaz. A desilusão é sempre plena, assim preenche todos os espaços do corpo. Não qualifica alto, mas não é ruim. É a crença na destruição, na não existência, no caos vivente, e isso tudo serve perfeitamente para alguns. Não é ruim pois vem acompanhada com idéias, o desiludido esta vivo pois sente. Melhor que o conformado, que pulsa lodo, que vomita lodo, que dorme no lodo. Se acha feliz, o mais feliz de todos se perguntar, mas a cobertura é marrom, por mais que bem apresentada. Engana quando deveria horrorizar. O desiludido causa horror onde deveria causar paixão. Paixão se inicia como um desejo, que quando ganha forma explode. De algumas explosões algo melhor surge, de outras some e vira o nada aparente. A paixão do desiludido é diferente. Ela não explode, ela é ruminada. Ela queima como ácido, ela quebra e encaminha seus nutrientes para as mais diversas locações da experiência de vida. Vocês já sentiram o jazz?

O que me salva são meus pensamentos. Faça o que eu digo, não faça o que eu faço. Batido, mas adequado. Enquanto racional, mantenho as coisas boas em mim, e como o espaço é pouco, comparado ao poder de expansão de sentimentos e vontades puras, às vezes acabo tendo que expulsar. Escrevo, canto, falo, desenho, gravo em outros lugares que fora de minha cabeça. Mas o resto do corpo ainda está cheio demais da desilusão.

Questione em vez de aceitar. Pelo menos quando os instintos mandam. Quando meu cérebro trabalha não tenho problema nenhum quanto a isso. Quero ser Dylan.

"You've been through
All of F. Scott Fitzgerald's books
You're very well read
It's well known
But something is happening here
And you don't know what it is
Do you, Mister Jones?"

Não sei... mas estamos em 1914. Agora estamos em 1969. Agora estamos em 53, em 87, em 77, em 32. Estava pequeno, mas quero voltar a ser grande, já posso ver melhor.

"That 'the flower of youth' and the 'best of the nation' had been destroyed"
É hora de renascer. Digo isso por mim, e por vocês. Acho que todos deveriam fazer algo inesperado hoje. Nasci para ser escritor, mas para isso preciso sentir o jazz. Vejo que você abriu espaço no próprio corpo, as idéias me descem, é hora de transar com elas. Eu me sinto bem. Vamos ao inesperado.

Eu sou quem matou o futuro antes dele chegar, a linha temporal agora pesa e puxa o passado em velocidade impossível de acompanhar. Vejo as traves esticadas, vejo as bases desmoronadas, vejo as cores do ferro derretendo, do vidro aparecendo, do sangue escorrendo e manchando tudo. O vinho mancha mais do que o sangue. Tenho vinho no canto de minha boca, preciso limpar com este lenço que está preso, vermelho, atrás de minha calça. Vou puxar o lenço e puxar assim toda minha existência como meio de purificação do que antes estava morto. Olheiras viram adereços e sinto como se num poço de azeite fervente. Eu sou levado pelo vento neste momento. E isso foi tão inesperado, não é, Mister Jones?

Um comentário:

T disse...

Vontade pura; Vejo seus lábios em botão zombeteiro.