segunda-feira, 27 de abril de 2009

a irritante felicidade alheia.

Não costumo ser daquelas pessoas praguejantes, daquelas que dizem que tudo vai dar errado
Também não sou alguém que reclama de tudo, a qualquer momento, em qualquer situação
Mas também não nego a existência dos conflitos. Não nego o meu mau humor, o meu descontentamento com certas coisas, inclusive algumas que não têm solução, por hora
Gosto de rir, amo rir, gargalhar, de doer a barriga e as bochechas, de faltar o ar. Aquele riso que, mais um pouco, vira choro desmedido
Rir é um ato pontual, é catártico, cínico e, em alguma medida, também uma expressão de superação. Um riso carregado de afeto. Pode ser desejo, angústia, pode ser dor. Pode também ser um riso de foda-se. Não o foda-se todo mundo, mas o que diz "eu vou me libertar, eu me libertei. Não quero isso mais pra mim".
Outra coisa, diferente, é o riso alienado de felicidade vazia. Aquele que refere uma felicidade constante, um contentamento com tudo, a ausência de dúvida, de conflito, de angústia.
Esse riso me irrita. Me irrita muito. Não é incomodo, não queria estar no lugar dessa pessoa. Talvez a alienação alheia irrite. Será que eu queria, no fundo, estar no lugar dessa pessoa, alienada também? Ou será que eu me sinto falando com uma parede? É difícil explicar. Não, não é isso, não é uma explicação que falta. É um nome.
Retornando à questão da felicidade, que, no mais das vezes, é um sonho de consumo, um objetivo, uma meta, um dever. Muitas vezes me sinto compelida a mostrar felicidade. Às vezes, consigo me impor na minha dúvida, às vezes não. Aí tem um íncomodo, no sentir-se exigido de ser feliz; exigência essa que parte do mesmo dono do riso vazio...
Não estou atrás de ser feliz, não dessa felicidade. Mas se existe outra, ainda não descobri, porque o que sei é sempre tenho dúvidas, e as dúvidas sempre causam angústia. Eu sempre estou com o outro, então, sempre estou em conflito. Eu sempre sinto, então, estou sucetível à dor.
Se a felicidade compate com essas condições, ainda não sei, mas essas são condições reais humanas. Não há existência sem desgaste e sem marcas. E a felicidade almejada não renega tudo isso? Ou não diz que é maior que tudo isso?
Eu ainda defendo a legitimidade do sofrimentoe da dor, como a experiência que funda a realidade da vida e das coisas
Não o sofrimento cristão, porque esse também aliena tanto quanto a felicidade vazia, e talvez ela seja a compensação dele, e, portanto, andam juntos
Não sei se o que eu quero é ser feliz. Não sei se hoje, ou um dia, esse nome vai significar o que eu sei que sempre procuro, que é o sentido da vida e das coisas, é fazer a vida valer a pena
A felicidade não é uma mentira; ela simplesmente não é uma questão

3 comentários:

Yuri Cunha disse...

Este autor desconhecido é o cara.

Marina Speranza disse...

irritante é saber que não sou a pessoa anônima que fez o texto.

Solilóquio ao longe disse...

Parabéns,moço do meio das coisas. A felicidade vazia eu näo quero, obrigada... e essa tbm me irrita... näo sei se tô errada ou certa... nem cult e nem pop.