sábado, 14 de junho de 2008

A Infame Arte do Mi Mi Mi!

Opa! |Fly| a.k.a. Ismael Alberto Schonhorst, se apresentando como mais novo membro da equipe de colaboração do Rapadura Blog. Tudo certo com os senhores? Alguns vão me conhecer de outros locais, outros vão entrar em contato com meu estilo de escrever somente agora, mas enfim, peço permissão para trazer à tona temas calorosos, debates divertidos e matérias polêmicas, não necessariamente nesta ordem (que por sinal, é diferente da ordem que pensei antes de escrever).

Pois bem, como diria Glauber Rocha (um dos diretores pelo qual tenho amor e ódio ao mesmo tempo, tema que irei aprofundar brevemente), o assunto é cinema, cinema, cinema, o assunto é… cinema. O assunto é cinema, mas o foco que proponho hoje é subversão no cinema. O que leva as pessoas terem medo de algo que lhes faça pensar. Eu ingenuamente acreditava que nos tempos atuais, todos estavam acostumados a serem contestadas durante um filme. Vide exemplos de sucesso, mesmo que não de primeiro momento, tipo “Clube da Luta“, ou casos mais blockbusters como “Matrix“. Na minha cabeça, coisas diferentes não causavam mais receio na população geral (que curte um bom filme).

Estava enganado! Semana passada, eu organizei em minha faculdade uma mostra de cinema underground, ou brasileiramente falando, cinema “udigrudi”. Levei os diretores, para que houvesse um debate, um feedback pós-apreciação de suas obras, e coisa e tal. Falei que a presença deles não obrigava ninguém a gostar. Queria que assistissem e manifestassem sua opinião. Manifestaram bem demais. Em menos de meia hora de exibição, os mais ou menos 200 participantes que estavam lá na hora que o DVD começou a rodar, diminuíram para 30 pessoas no máximo. O conteúdo dos filmes era de um certo peso. A estética diferente do padrão hollywoodiano. As idéias apresentadas, por demais bizarras ao ver geral. Mas as pessoas nem tentaram entender, se chocaram por besteira, demonstraram uma hipocrisia, e saíram, não importando os diretores estarem presentes, dispostos a discutir e aceitar tranquilamente as críticas. Isso me lembra muito o pessoal que saia correndo das salas de cinema ao assistir “Laranja Mecânica” nos anos 70…

Mas, caso semelhante, e em maior nível, posso citar que tenha ocorrido com um filme chamado “Murder-Set-Pieces” (de 2004, mas chegou só agora ao Brasil, com um título traduzido que me recuso a citar. O Google está aí para isso, caro Padawan). Minha irmã alugou o filme, pois na capa prometia ser algo ao estilo “Jogos Mortais“, só que em doses cavalares. Resultado, ela odiou. Era o que ela esperava, só que de uma forma diferente do que imaginava. Era doses para elefantas, não para cavalos. Ela contando na mesa o quão ruim e sem sentido o filme era, me despertou interesse. Resolvi pesquisar, antes de decidir se encarava a má qualidade que ela alertava. Descobri que o filme tinha passado pelo tribunal da inquisição, ministrado por milhares de internautas que haviam odiado o filme. Fui mais a fundo, e parei em sites mais “confiáveis”, e acabei achando algumas opiniões favoráveis a ele, sempre citando o quão mega subestimado o filme estava sendo. Pronto, resolvi ver…

E o filme é bom! Não é ruim, nem ótimo. Até eu diria que é um bom em nível quase caindo para o regular. Mas não é a qualidade dele, como filme, que me chamou a atenção. Ele a princípio, é besta, sem história, Sem sentindo, com crueldade na mais crua forma. Mas se você assistir ele com a mente aberta, lendo nas entrelinhas, acaba descobrindo o potencial do filme. Ao estilo “Violência Gratuita“, do mestre Michael Haneke, o filme é uma piada com quem está assistindo. Ele olha nos seus olhos, bem fundo, e diz; “Alugou o filme querendo carnificina, não é? ENTÃO TOMA!“. Em uma cena que adorei, o personagem principal vai a uma locadora de filmes pornôs, e pede o filme “The Nutbag“, que para constar, é o primeiro filme do diretor de “Murder-Set-Pieces“. A realidade dentro de um filme, ou um filme que mostra a outra realidade, a do cinema. A sacada é que o tal filme, é no mesmo estilo do que você está assistindo, um longa de Violência x Violência. Ou seja, ele mesmo mostrou que as pessoas buscam filmes sangrentos hoje em dia, querem um pornô de bestialidades sádicas. Mas a coisa complica quando no meio do filme, acabam dando de cara com uma crítica a elas mesmas. Quando batem os olhos na ridicularização. Quando se encaram com a já citada subversão de valores. Você é um monstro, o filme te diz. E você não gosta, e sai por aí criticando pela internet, seu refúgio, seu Éden. Onde você mostra que tem “culhões” de detonar os filmes.

Mas quando você encara esta mesma situação, e se tivesse a chance de retrucar, na cara dela, você escaparia, jogaria fora a chance. Pois você tem medo de se ver realmente contestado perante um filme, um espetáculo. Cinema é diversão sim, mas também é educação, é protesto, e é “senta aí que vou te mostrar o quão tosco é sua vida”.

Viva para os fortes que ficaram até o final da mostra. Viva para os sábios que sabem ler as entrelinhas. Viva para os bravos que recebem a porrada, levantam, e dão outra em troca. Viva o cinema transgressor, de contracultura, e o cinema “udigrudi” nacional e underground mundial (não necessariamente de revolução).

[texto meu, originalmente publicado no Rapadura Blog, blog do site Cinema com Rapadura]

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