sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Um lixo...


Você já parou para ouvir bobagens? Quero dizer, você já parou para ouvir a sua própria babaquice? Olhe para todas as suas coisas. Lixo! Por qual motivo você tem estes coisas e por qual razão elas estão aqui? Você pode olhar para o seu iPhone com capinha do U2, para o seu DVD pirata de um filme russo, ou para os arquivos que você baixou para o seu PC achando que tinha algum plano de vida por trás disso. Desculpe-me, vou começar novamente. Você gostaria de algum snack... quem sabe um pacote de Ruffles? Um docinho? Nós temos que continuar a conversa. Desculpe-me por oferecer um snack e não ter oferecido molho. Estamos sem molho por aqui. Ah, sim... bobagens. Lixo, melhor falando. Aquilo que você pretensamente julga estar sobre o seu controle. Aquela porcaria toda que você força os outros a encararem quando entram em contato contigo. Você sabe que invariavelmente você faz parte de uma nova forma de entretenimento. "Qual é a nova forma de entretenimento? Qual é a nova forma de entretenimento?" Hmmm... Onde está o meu gato? Ele é um detetive felino. Ele certamente pode achar uma resposta para a gente. Eu não estou achando ele. Deve estar perdido no meio de minhas bobagens. Alô? O quê? O Google foi hackeado? Merda! Não vou poder usar ele para pesquisar a resposta então. Que tal perguntar pro... não. Acho que o Cadê? não deve mais existir. Hmmmmmmmm, deixa eu ver...click...click...click. Hey, Rafa! Você esteve usando o seu pendrive mágico na minha porte USB lateral 2.7 com expansão múltipla para SDD Cards? Algo está errado aqui. O pendrive não estava com vírus, certo? O inverno está passando... Quê? Cliquei num arquivo errado aqui e me lembrei de Gam... esquece. Do que falávamos mesmo? Ah! De como você é burro, cara... Espera. Não, acho que a internet pifou mesmo. Culpa nossa. A gente esqueceu de apertar Salvar antes de fechar o navegador. Daí fechamos os olhos e fingimos acreditar que estava tudo bem... mas tinha alguém nos estuprando. E o pior, a gente estava curtindo isso sem saber... fechamos os olhos, e fomos parar no Forte do Trovão! Você está lendo isso aqui ainda? Bom... Bom... Melhor do que ficar ouvindo o seu lixo mental, não é mesmo? Ouça o que eu estou te dizendo. Algumas galerias não possuem nem mesmo paredes!!!

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Cimento (uma memória)




A única coisa certa na vida é a morte. A única coisa certa naquele quarto era o cadáver. Cheiro fúnebre de projeto de vida escorrendo pelas imagens sacras na parede. A tosse que vinha de lá pontuava um erro. Na minha cabeça, a vida do passado dela já estava em outro lugar. As histórias contadas eram fantasmas fétidos nos armários de roupas antigas.
Com a descoberta do sexo o pavor aumentou. No quarto de vovó, o meu avô não existia há tempos. E ela também não mais devia estar lá. A vida estava na família enorme, gerada no quarto. A cama de esperma era endurecida e apagada antes mesmo de existir como imagem de finalidade. Sua estrutura era a mesma daquele esqueleto solitário que fingia andar vestido de casacos de lã.
Quando brincava e lá me escondia, com ela ausente da habitação, também me fingia uma morte já sentida. Projeto de vida no brincar ao redor do túmulo. As cores roxas; nada lúcidas; nada eróticas. O gozo que jorra no espaço um tempo destinado ao fim. Minha vó era e servia de cobra que cisma em querer não-morder o próprio rabo. Humana? Demasiadamente estúpida em insistir uma vida que não é mais sua. Um espartilho mofado encostado no armário de roupas mais antigas ainda.
E ela voltava e me expulsava e se enfurecia. Melhor do que filme de horror na madrugada. Um quarto no fim do corredor de madeira, à direita. Não entre que é da vovó. E ela adiando o suspiro final. Rouca. E eu suspirando as histórias dos porta-retratos.
A casa foi demolida e ela... continua fingindo estar viva. O quarto se admitiu morto antes dela. Continua mais branca que a cal dos tijolos tombados (1). Aposto que foi ela que tombou o quarto para ritualizar um orgasmo e continuar sua farsa.
Hoje mora em outro quarto. Quanto mais corpos tombarão antes que ela faça a única coisa certa da sua morte, que é pontuar a vida.
 
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  1.  Descobri que as faixas das múmias tinham cal em sua composição.

domingo, 19 de agosto de 2012

Any Day Now (2012)


Um homem arrebatado pela bebedeira do cotidiano se encontra em um
local ao mesmo tempo tão familiar e tão distante. Precisa reencontrar o
seu orgasmo interior. Não importa mais como. Ele tem apenas vontade
de se sentir vivo! Explosivo! Any day now!

"O curta mais impressionante deste ano no circuito alternativo de cinema brasileiro." Paulo Francis

"Eu sempre sonhei com um curta que fosse ao mesmo tempo clipe, então fiz Thriller e Smooth Criminal. Any Day Now é a evolução do meu sonho!" Michael Jackson

"Pornografia para a geração moderna!" J.G. Ballard

"Life is a Killer." William S. Burroughs

Direção: Ismael A, Schonhorst
Produção: Ana Júlia Galvan
Atores: Yuri Cunha, Gabriel Schmidt, Ismael A. Schonhorst e Ana Júlia Galvan
Trilha Sonora: Os Legais - Any Day Now
Músicos: Amauri Penteado, Alejandro Gutierrez, Gurcius Gewdner , Hans Konesky, Iuguru Magnor, J.W. Kielwagen, Marcius Gewdner, Marcuccelli Caldatto e Nietzsche Star divididos entre uma gama incrível de instrumentos diversos e fantásticos.

!!

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Três pensamentos elegantes





Tenho medo deste futuro que vocês tanto lutam. Esta justiça que tanto idealizam me parece o inferno na terra, mas para vocês parece um sonho angelical, o fim do arrependimento. Vocês são fracos perante os próprios remorsos, isso sim. O paraíso é chato pra diabo, e somos diabos humanos, admitam! Querem uma vida higienizada moralmente e socialmente, as maiores bestialidade aceitas não somente em complacência, mas aprovadas pelo código do Inmetro e preservadas pelo IBAMA. Marcha por uma tolerância quase perniciosa. Ecoa no meu ouvido o sábio conselho de Nelson Rodrigues, " com o senso comum não se fazem os grandes amores". Os vingadores hormônios da humanidade serão o seu próprio câncer.


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A liberdade social conquistada pela imposição humana vicia como o crack. Quanto mais se conquista a tolerância "Colgate", mais dela você precisa para ficar 'bem'. Mas você nunca ficará bem de verdade. Eu gosto da ideia de pecado, e não digo isso afirmando que sou um libertino. Gosto do pecado pois é ele que nos permite a ousadia da escolha. Sem pecado a vida seria um tédio, não teríamos dramas insolúveis e sábias comédias, apenas esquecíveis novelas mexicanas e pastelões bobos. Seríamos obrigados pela lógica a sermos todos ascetas, mas sem a densidade do asceta que lida no fundo de sua alma com as tensões existenciais. Deixo a purificação absoluta para a eternidade. Como humano, quero ter a opção de ser virtuoso ou pecador. Sem isso, todas as frutas se tornam igualmente aborrecidas. Quem tem medo e ojeriza pela ideia do pecado, confunde arrependimento (busca pela consciência do seu próprio ideal, uma atitude puramente filosófica) com remorso (auto-punição injusta, plantada no indivíduo por um autoritarismo irracional). É um ser mimado que busca fugir de suas assumidas responsabilidades, de seus cônscios deveres e das consequências de seus atos, interiores e exteriores. Quem busca fugir disso tudo, mente para si mesmo afirmando que não tem medo nem de Deus (seja ele qual for, mesmo aquele que 'não existe'), do Diabo (inclusive do Diabo-homem), e do absurdismo da Terra do Sol (e da Chuva, da Garoa, da Neve, etc). Não é verdade.


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Não acredito em amor poligâmico, pois amar é se dispor a uma egoísta servidão voluntária. Não sou contra quem pratica os amores múltiplos, mas sejamos sinceros, se ama sem querer se prender, planejar um futuro sólido, buscar com paixão em si mesmo a virtude da fidelidade, o amor é apenas fraterno. Não sendo este o caso da relação, possivelmente não é Amor, mas sim excitados colegas de putaria, ou um humano medo da solidão. Muito justo, mas não me venham com sentimentalismos.

domingo, 13 de maio de 2012

Método


Se vem ao pensamento
Na ida, na vinda
Na maior parte do tempo
Se não falares nada
Transforma em poesia

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Lavagem estomacal



Sentado no manto sob o céu o mestre te lembra que
Você nasceu com uma máscara negra que te faz cruel.
As coisas mudaram e aquilo fica a bater por dentro.
Não sentido, em algum lugar aqui marcado esperando.
Quando. Terá. Será. Nem. Quem. Sabe. Sim. Disfarça.
E atrás das luzes, das várias, olhar dirigido a ti.
Sim, existe uma máscara negra, e o teu sarcasmo ali.
E então o tempo passa e o que não se nota pode surgir,
Num relapso, e vamos pra cama, te rasgo por dentro.
Mas onde as coisas realmente agem fica algo estranho.
Nisso a cabeça revirada ensina; o que falta-te é o abraço.
Mas isso não terás, só os falsos amigos, as putas, os tragos.
Então chega o dia que todos aquele orientalismo faz sentido.
A peça será re/construída, no dia seguinte ao usual.
Faixas enfileiradas, uma história dirigida.
Apresentação dos personagens, e no recomeço o chapeleiro
Será o responsável pela pergunta que possibilitará
Um novo ato, de rostos lavados, quem sabe dos mais belos.
Pois quando receberes o sopro poderás viver na realidade!
Mas, amigo, eu duvido que será melhor do que as anteriores.

domingo, 4 de março de 2012

Ideia para uma experimentação iônica do espaço-tempo;


24 luas dividindo o mapa (não o território) da terra em zonas temporais. 48 câmeras apontadas para o céu seguindo as mesmas leis geométricas para capturar todos os quadrantes do espaço no tempo de 30 minutos. 24 horas na terra em 24x1800 segundos somados. Edição posterior de 1 milhões de fps para alongar o dia nesta reconstrução dinâmica. Exibição de resultado em praça pública com o acompanhamento de batidas primárias imitando o ciclo circadiano numa rave de MDMA e suco de uva. Retorno ao útero do Big Bang! Sono induzido por flashes e anotações posteriores dos sonhos destes Prometeus experimentadores. Está criado o romance da existência não-linear mas inteiramente proporcional ao que a vida possibilita para os nervos de nossa espécie.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Instruções para Descobrir Novas Coisas e Fazer Amigos



Você deve ter perto de sua casa um jardim.
Um parque ou uma praça pública.
Ao menos um vizinho com um gramado.
Passe no local que for mais próximo.
Olhe atentamente os arbustos.
Escute atentamente os arbustos.
Sinta atentamente os arbustos.
Dê um sorriso de novidade e surpresa.
Depois saia correndo em busca de alguém
para contar o que você viu lá.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ônibus.


- Você parece triste.
- Sempre é triste...
- Você se arrepende de algo? Ou de alguém?
- Não, senhora.
- Ela realmente parece arrependida.
- Mas ela também está sorrindo.
- Sim, senhora. Um sorriso arrependido. Às vezes aparece durante a noite, quando a noite vai se deitar ela dá lugar à escuridão, quando as horas respiram mal. E quando a solidão, sozinha, se transforma em remorso.
- Você pode se arrepender ou sorrir. Não os dois ao mesmo tempo!
- Não, senhora. Os dois eventos, sorriso e arrependimento, coexistem. Então, o tempo aqui é vertical.
- Ai!
- O sentimento é irreversível, por assim dizer, a reversibilidade é aqui sentimentalizada. O sorriso se arrepende, e o arrependimento sorri.
- Posso?
- Controle de arrependimento.
- Acho que sim, senhora!

Era uma espera sem sentido. Uma espera sem sentido, e, portanto, ainda assim direcionada para a espera, o sonhador. Era um tipo de convite para ele para fazer uma última tentativa, um último esforço criativo para sair do sonho, do destino, da sorte, da forma, de si mesmo.

- Tenho visto a vida inteira, sem uma exceção sequer, homens com rostos duros, contorcidos, que demonstram tão terrível temperamento e rugem tão horrivelmente que metem medo em lobos. Frequentemente me pergunto o que é mais fácil de penetrar, as profundezas do oceano, ou as profundezas do coração humano!
- Saudações a ti, velho oceano!
- Saudações a ti, velho oceano! Diga-me se o Príncipe das Trevas luta dentro de você! Diga-me!
- Você que deve me dizer!
- Eu ficaria encantado em saber que o Inferno está tão perto do homem!
- Saudações, velho oceano!
- Ainda não!
- Então, uma última vez, eu saúdo a ti, velho oceano. Tuas ondas cristalinas superam a beleza da noite. Responda, oceano! Se és meu irmão, rola tuas temerosas ondas, odiento oceano, diante do qual eu falho.
- Saudações, velho oceano!
- Agora!
- Saudações, velho oceano!

    "Falo mais baixo...
    Cada ano falo mais baixo...
    Pensando melhor,
    não, não está bom...
    Quando as pessoas parecem
    que me conheceram,
    É como se..."

Observe esse silêncio, sua boca também ansiava abrir num último grito mudo de horror. No entanto, enquanto ele via o silêncio, quase antes de ele ver, ele não mais viu. Pois a noite reúne suas forças uma última vez para vencer a luz. Mas a luz vai esfaquear a noite nas costas. E agora, muito calmamente no começo, como se para não alarmá-lo, o sussurro que o Homem ouvira não tanto tempo atrás, há tanto tempo, muito antes de ele existir, o sussurro recomeçou.

- Então o quê?
- Não sei... Não deveria ter começado... O sentimento. Sempre senti que havia um assassino dentro de mim, antes do nascimento! Mesmo, no chão ligado a você pelo amor, pelo amor...
- Claro, ele deve ser trazido de volta à vida!
- É isso que torna o trabalho tão difícil. Mas faz parte da aflição. Mas eu preciso continuar. Vou continuar...
- Pare de dizer "eu" o tempo inteiro.
- É assim que eu falo, é como eu falo comigo mesmo. Naquela tarde... Aqui, na terra... Só há eu, e uma voz que não pode ser ouvida, porque não se dirige a lugar algum. Então, à noite, alguém sussurra no meu quarto. É o vento ou são meus ancestrais?
- Ocidentais, entre outros, acreditam que há um quarto, e outro quarto: o Além. A Morte é a porta que leva de um quarto ao outro.
- Mas por que tornar a porta uma tragédia? O Homem nasce para a morte.
- Ele pode causá-la se quiser.
- Mas em nenhuma civilização, nenhuma, o homem optou por sua própria morte. No entanto, escolher não ter renascido é o bastante.
- Algumas vezes você se pergunta se está no planeta certo!

    "Quando separamos
    essa terra do sol?
    Quem nos deu a esponja
    para apagar o horizonte?
    Não estamos caindo para sempre?
    Não consegue ver a noite chegando...
    nada a não ser a noite?"

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Experiências de um leitor.



por Vladimir Nabokov.

[Aula para um restrito número de alunos de Wellesley e Cornel.]


Há cem anos Gustave Flaubert, numa carta à sua namorada, fez o seguinte comentário: “Como seríamos sábios se conhecêssemos bem apenas cinco ou seis livros”.
No ato da leitura é preciso perceber e apreciar cada detalhe. Não há nada errado com a generalização, quando acontece depois que as preciosas minúcias do livro foram carinhosamente coletadas. Se começamos a leitura com uma idéia preestabelecida então começamos pela extremidade errada e nos afastamos, cada vez mais, do livro, antes mesmo de começar a entendê-lo.
Nada é mais desagradável ou injusto para com o autor do que começar a ler, por exemplo, Madame Bovary, com a noção preconcebida de que a história é uma denuncio contra a burguesia. Devemos sempre lembrar que o trabalho artístico é, invariavelmente, a criação de um novo mundo. Assim, a primeira coisa que deveríamos fazer seria estudar este novo mundo, o mais intimamente possível considerando-o como algo completamente novo, não tendo nenhuma ligação óbvia com os mundos que já conhecemos. Quando este novo mundo já foi intimamente estudado, então, e só então, vamos examinar suas ligações com outros mundos, com outros ramos do conhecimento.
Outra questão: podemos esperar obter informações sobre lugares e época ao lermos um romance? Pode alguém ser tão ingênuo a ponto de pensar que vai aprender alguma coisa sobre o passado, lendo aqueles grossos best-sellers que são espalhados por todos os cantos, pelos clubes de leitura, sob o título de novelas históricas? Mas, e as obras-primas? Podemos confiar na descrição de Jane Austen da Inglaterra dos grandes proprietários rurais, com baronetes e campos floridos, quando tudo que ela conhecia era o gabinete da casa de um clérigo? E Bleak House, aquele fantástico romance que se passa numa fantástica Londres? Certamente não. O mesmo acontece com outros livros deste tipo. A verdade é que grandes romances sempre são grandes contos de fadas e os romances deste tipo são contos de fadas notáveis.
O tempo e o espaço, as cores das estações, os movimentos dos músculos, as mudanças de pensamento, tudo isso, para os escritores geniais (tanto quanto podemos supor, — e acredito que estejamos certos) não são simples noções tradicionais que podem ser copiadas das bibliotecas ambulantes que contêm verdades notórias, mas uma série de raras surpresas únicas, que grandes artistas aprenderam a expressar de maneira própria e invulgar. Para autores menores sobra a ornamentação do lugar comum. Eles não se incomodam em reinventar o mundo; simplesmente tentam extrair o máximo de uma determinada ordem de coisas, de tradicionais padrões de ficção. As várias combinações que estes autores menores são capazes de produzir, dentro destes limites fixados, podem até ser bastante agradáveis, de forma suave e passageira, porque leitores menores gostam de reconhecer suas próprias idéias em agradáveis disfarces. Mas o verdadeiro escritor, aquele que faz planetas girarem e modela o homem adormecido e, avidamente, transforma sua costela, este tipo de autor não possui valores estabelecidos, à sua disposição, ele mesmo deve criá-los.
A arte de escrever é uma ocupação fútil, sobretudo se não implica uma visão do mundo como ficção em potencial. A substância deste mundo pode ser suficientemente real (até onde se pode considerar a realidade), mas não existe, em absoluto, como um todo incontestável: é o caos. E para este caos o autor diz: “Vai”, autorizando o mundo a chamejar e a fundir-se. Agora ele é recombinado até em seus átomos e não apenas em suas partes visíveis e superficiais. O escritor é o primeiro homem a traçar os caminhos e dar nomes aos objetos naturais que esse mundo contém. Aqueles grãos ali são férteis. Aquela fera que cruzou meu caminho pode ser domada. Aquele lago entre aquelas árvores será chamado Lake Opal ou, mais artisticamente, Dishwater Lake. Esta neblina é uma montanha e esta montanha deve ser conquistada. Por sobre uma rampa, sem pegadas, caminha o artista maior e, no topo, numa serra ondulada, quem vocês pensam que ele encontra? O leitor, ofegante e feliz, e lá eles, espontaneamente, se entram e se ligam para sempre, se o livro for daqueles que duram para sempre.
Incidentalmente, usa a palavra “leitor” de maneira muito vaga. Mas é curioso, não se pode ler um livro: podemos apenas relê-lo. Um bom leitor, o leitor maior, um leitor ativo e criativo é o releitor. E vou lhes dizer por quê. Quando se lê um livro, pela primeira vez, o laborioso processo de movimentar os olhos da esquerda para a direita, linha após linha, página após página, esse complicado trabalho físico sobre o livro, esse processo de captar, em termos de espaço e tempo, o assunto do livro, é uma barreira entre nós e a apreciação artística. Quando olhamos um quadro não temos de mover nossos olhos de maneira especial, mesmo se, como num livro, a pintura contém elementos de profundidade ou seguimento. O elemento tempo realmente não está presente num primeiro contato com a pintura. Na leitura de um livro devemos ter tempo para nos acostumarmos com ele. Com relação à leitura o corpo humano não dispõe de nenhum órgão capaz de, primeiro abranger o todo (como, no caso da pintura, os olhos sobre a tela) e, depois se fixar em cada um dos detalhes. Mas, numa segunda ou terceira, ou quarta leitura podemos, em certo sentido, nos comportar com o livro como fazemos com o quadro. Entretanto, não confundamos os olhos, estas obras-primas da evolução, com o pensamento, uma realização ainda mais fantástica. Um livro, não importa o que seja — um trabalho de ficção ou um trabalho científico (a linha divisória entre os dois não é tão clara como geralmente se pensa) — um livro de ficção apela, acima de tudo, à mente. A mente, o cérebro, o ponto mais sensível da espinha são, ou deveriam ser, os únicos instrumentos usados na leitura de um livro.
Sendo assim, poderíamos levantar a seguinte questão: como é que a mente funciona quando um leitor sombrio se depara com um livro ensolarado? Primeiro, aquele estado de espírito solene se desfaz e, para melhor ou para pior, o leitor aceita as regras do jogo. O esforço para começar a ler um livro, principalmente quando é elogiado por pessoas que o jovem leitor secretamente considera muito antiquadas ou muito sérias, é, na maioria das vezes, difícil de se realizar; mas, uma vez feito, as recompensas são várias e abundantes. Uma vez que o artista maior usou sua imaginação criando seu livro, é natural e justo que o consumidor deste livro use também sua imaginação.
Há, entretanto, pelo menos duas variáveis de imaginação no caso do leitor. Vamos ver então qual das duas é a correta para ser usada na leitura de um livro. Primeiro, há uma espécie de imaginação comparativamente inferior que se transforma em sustentáculo de emoções simples e é, definitivamente, de natureza pessoal. (Aqui, na primeira fase da leitura emocional, existem diversas variantes.) Uma situação do livro é intensamente sentida porque relembra algo que aconteceu a nós ou a alguém que conhecemos ou conhecíamos. Ou, ainda, o leitor considera o livro um tesouro principalmente porque evoca um país, uma paisagem, um modo de vida que ele, nostalgicamente, recorda como parte de seu próprio passado. Ou, também, e isto é a pior coisa que um leitor pode fazer, ele se identifica com uma personagem do livro. Esta variante inferior não é a espécie de imaginação que eu gostaria que os leitores usassem.
Então, qual é o autêntico instrumento a ser usado pelo leitor? É a imaginação impessoal e o prazer artístico. Penso que, o que deveria ser estabelecido é um equilíbrio artístico harmonioso entre o pensamento do leitor e o do autor. Deveríamos permanecer um pouco distantes e sentir prazer neste distanciamento, ao mesmo tempo, deveríamos apreciar intensamente, apaixonadamente, com lágrimas e arrepios, o secreto fascínio de uma obra-prima. Ser bastante objetivo nestes assuntos é, naturalmente, impossível. Tudo que vale a pena é, de alguma forma, subjetivo. Por exemplo, vocês sentados aí, podem ser simplesmente um sonho meu, e eu, certamente, o pesadelo de vocês. Mas o que quero dizer é que o leitor deve saber quando e onde frear sua imaginação. Isto ele consegue procurando ver claramente o mundo específico que o autor coloca à sua disposição. Devemos ver coisas e ouvir coisas, devemos visualizar as salas, as roupas e os gestos das personagens do autor. A cor dos olhos de Fanny Price em Mansfield Park e a mobília de seu quarto pequeno e frio são importantes.
Cada um tem temperamento diferente. E posso lhes dizer, agora mesmo: o melhor temperamento que um leitor pode ter ou desenvolver é a combinação do artístico com o científico. O artista entusiasta, quando só, tende a ser subjetivo demais na sua atitude em relação ao livro, e assim a frieza de julgamento científico vai moderar esse ardor intuitivo. Se, entretanto, um pretenso leitor é completamente destituído de paixão e paciência — uma paixão de artista e uma paciência de cientista — dificilmente apreciará a literatura maior.
A literatura não nasceu no dia em que um menino gritando: “Olha o lobo, olha o lobo” saiu correndo do vale de Neanderthal com um lobo cinzento e grande em seus calcanhares. A literatura nasceu no dia em que um menino veio gritando: “Olha o lobo, olha o lobo” e não havia nenhum lobo atrás dele. (Que o pobre menino tenha sido devorado por uma fera de verdade, por ter mentido tantas vezes, é apenas um incidente.) Mas, aqui está o que é importante. Entre o lobo do vale e o lobo da história existe algo flamejando. Este algo, este prisma, é a arte da literatura.
Literatura é invenção. Ficção é ficção. Chamar uma história de verdadeira é um insulto, tanto para a arte, como para a verdade. Todo grande escritor é um grande enganador. Mas assim é também a Natureza, esta arqui-impostora. A Natureza sempre engana. Desde a simples armadilha da procriação, até a prodigiosa e sofisticada ilusão das cores de pássaros e borboletas, que são passam de camuflagem protetoras. Existe na Natureza um sistema maravilhoso de magias e astúcias. O escritor de ficção, apenas segue o exemplo da Natureza.
Voltando, por um momento, ao nosso confuso menininho do vale, que gritava “olha o lobo”, podemos colocar as coisas assim: a magia da arte estava na sombra do lobo que ele deliberadamente inventou, no seu sonho sobre o lobo; depois disso o relato de suas traquinagens deu uma boa história. Quando afinal ele morreu, a história contada sobre ele adquiriu o significado de uma boa lição, daquelas que se contam ao redor de uma fogueira de acampamento. Mas, ele era o pequeno mágico. Ele era o inventor.
Um escritor pode ser considerado sob três pontos de vista: como um contador de histórias, como um professor e como um mágico. O escritor maior reúne estes três — o contador de histórias, o professor e o mágico. Mas é o mágico que existe nele, que predomina e faz dele um escritor maior.
Para o contador de histórias, nos voltamos em busca de entretenimento, de excitação mental do tipo mais simples, de participação emocional, do prazer de viajar por uma região remota no tempo ou no espaço. Um intelecto um pouquinho diferente, embora não necessariamente superior, procura no escritor o professor. Propagandista, moralista, profeta — esta é a seqüencia crescente. Podemos procurar o professor não apenas pela educação moral, mas também pelo conhecimento direto, pela busca de simples fatos. Ai de mim, já conheci pessoas cujo propósito, ao lerem romancistas franceses e russos, era aprender algo sobre a vida na “alegre Parrí” ou na “tristonha Rússia”. Enfim, e sobretudo, um grande escritor é sempre um grande mágico. E é aqui que chegamos à parte verdadeiramente fascinante, quando tentamos captar a magia individual da genialidade do autor, estudar seu estilo, suas fantasias, a forma de seus romances ou de seus poemas. As três facetas de um grande escritor — magia, história, ensinamento — tendem a se fundir numa única expressão de raro esplendor, desde que a magia da arte esteja presente na medula da história, na verdadeira essência do pensamento. Existem obras-primas cuja objetividade, clareza e organização do pensamento provocam em nós um profundo prazer artístico quase tão forte quanto o sentido num romance como Mansfield Park, ou como em qualquer rica explosão de metáforas sensuais de Dickens. Parece-me que uma boa fórmula para testar a qualidade de um romance é, durante a leitura, examinar a precisão da poesia, a intuição da ciência. Para conseguir penetrar nesta magia, o leitor inteligente lê o livro de um gênio não com o coração, nem tanto com o cérebro, mas com sua espinha — a sede do prazer artístico. É aí que ocorre o tão famoso “arrepio”. Mesmo assim, devemos nos manter um pouco distantes, um pouco afastados, quando lemos. Então, com um prazer que é tanto sensual, quanto intelectual, devemos observar o artista construindo o seu castelo de cartas e a transformação deste castelo numa bela construção de aço e vidro.

Tradução de Anna Maria Terra Magalhães, publicada originalmente no volume 5 da revista Oitenta, publicada no Inverno de 1981 pela L&PM Editores Ltda.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Defina 'ironia'.



"There's no point to any of this. It's all just a... a random lottery of meaningless tragedy and a series of near escapes. So I take pleasure in the details. You know... a Quarter-Pounder with cheese, those are good, the sky about ten minutes before it starts to rain, the moment where your laughter become a cackle... and I, I sit back and I smoke my Camel Straights and I ride my own melt."

Não acredito nisso, mas é algo que soa bacana de se dizer. Não bacana num sentido de exibição social, mas de autosatisfação. Quando você consegue pensar nestas coisas, nem que seja num momento de autocomiseração, parece que algo faz sentido neste ato de negar o sentido todos os sentidos existenciais. E quais seriam estes sentidos? A cada momento me parece algo diferente, às vezes é o conhecimento que pregava Aristóteles, às vezes é apenas o de chegar em casa para ouvir um disco, ficar feliz e dormir. A primeira vez que assisti o filme da onde retirei esta citação (se interessar, se chama 'Reality Bites') eu não sabia como interpretar aquelas andanças dos personagens, suas dúvidas e medos, mas achei bacana aquele carinha lendo Heidegger na cafeteria. Gosto de me ver como sendo intelectual parte do tempo em que circulo por aí, mas admito que algumas vezes o que me motiva são coisas bestas, e este filme me motivou a ler Heidegger. Hoje tenho um interesse autônomo pelo autor, bem como um interesse autônomo por este filme. E então vou conquistando minhas autonomias na vida, este grande roda cheia de pedras que vai girando e girando, e nos polindo, ou para muitos, apenas nos destruindo. Pensar em possibilidades metafísicas para ela pode ser uma salvação para continuar sorrindo todas as manhãs, não descarto esta atração pelo oculto, mas nos dias em que estou bem prefiro me fixar em coisas mais simples, como as que o Troy fala ali em cima. Não sei se vocês conseguem acompanhar o meu pensamento, mas o caso é que normalmente nos fixamos nas coisas por alguma besteira, uma atração, um desejo que poderá não se transformar numa vontade, ou somente pois temos que arrumar algo para fazer entre as 7 da manhã e o horário em que desmaiamos de sono na madrugada. Mas acredito de verdade na conquista da autonomia. E acreditando nisso, também acredito nas coisas verdadeiras, as que se fixam em ti, ou as que te pertencem sem que saibas. Se encarada de forma tola, esta autonomia pode ser apenas um romantismo ou sentimentalismo, mas passa longe disso, acredite em mim. Quando você tem o prazer de descobrir por baixo das aparências algo que te conecta forte com um outro algo, fora de você, seja um cuidado sincero de um parente, seja uma risada desconcertante de um romance, seja o brilho de saber que é aquilo mesmo que queres fazer, ou seja a negação de uma oportunidade fabulosa em troca de uma certeza de que está fazendo a coisa certa, este prazer será verdadeiramente teu, e então podes voltar ao teu quarteirão com queijo ou o teu cigarro que acaba. Tudo acaba. Tudo já acabou. Seja na lógica da doutrina cartesiana ou experiência direta dos fatos. O que você consegue postular é um passado, mesmo que este esteja ainda no seu futuro. Isso não quer dizer que não exista ainda. Somos um rio de potências e de vivências, e estamos correndo, e morrendo. Então eu vou cavalgar na minha minha própria mortificação e rezar para que exista um estatuto de limitações sobre incidentes embaraçosos. Então o resto será de satisfações plenas, mesmo nas tristezas cotidianas que serei obrigado a lidar, como sempre fui, e como sempre serei. E você também, meu caro leitor.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Missa em Dor Maior.



Kyrie
Eu fui levado pelo vento ou o vento por mim foi levado?
Mãos que acariciam o livro escolheram o destino errado.


Gloria
Mas quem sabe qualquer algo sobre qualquer coisa daqui?
Pulinhos no estômago já surgem pela espera sendo forjada.


Credo
O que sonham os poetas nos sonos carregados de febre e neblina?
Fantasiam a ligação secreta entre amantes latinos e a sintaxe do latim.


Sanctus
Tua alma no real acalmará as impossibilidades da ingratidão?
Vermelhas rosas invadem as lápides frias de futuros invernais.
(Benedictus) Oração final para a sublimação da dança eterna.


Agnus Dei
Santo! Santo! Santo! Sento solitário e sinto o sino que não soa.
Acabam todos nesta vida entretidos com a esmola da carne das perguntas sem fim?

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Dichtung!



Dá a estética para à poética.
Não uma sem a outra,

Nem a outra sem a uma.
Mas sim — assim, A unidade.

n'liter aturas ser humano?

Ass.: Padre K. Goethe