sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Minutos Fatais (Cabeça Deturpada)


Trac. 01:12PM. 11 rápidos minutos de espera pelo ônibus. 11 longos minutos para se gastar olhando os pombos. "Cuidado!" alguém grita, mas não era para ele. Para ele somente os pombos. E para os pombos restos de comida que derrubaram ali perto.

Trac. 01:13PM. Começa a pensar em como os pombos não reclamam do que resta para eles comerem. Mas então lembra dos contos que andou lendo onde pessoas rotas comem e bebem e fodem e não estão nem aí para o ambiente ou as condições de higiene do local. Copos sujos viram penicos, pratos fundos viram tinas para bebidas, dentes podres viram objetos sexuais, fetiches viram o café da manhã.

Trac. 01:14PM. E lembra que com ele não, com ele não era assim. Ele precisava de um prato quente ao chegar em casa. Ou pelo menos o café passado e servido em uma caneca limpa por ele mesmo, é claro. Ele precisava de paredes e precisava de papel em branco, de preferência pautado. Ele precisava de um pouco de chilli bem temperado. Ele precisava de um pouco de qualquer coisa temperada. Uma vez leu numa revista destas que se encontra no dentista um artigo que dizia que existem várias formas de se relacionar.

Trac. 01:15PM. Existe o relacionamento temperado com sexo. Existe o sexo temperado com relacionamento. Existe relacionamento. E existe sexo. Será que este último contava como relacionamento, se nem ao menos tinha 'relacionamento' relacionado nesta categoria? Ele sabia que precisava de tempero em seu chilli, portanto seria previsto que as duas primeiras opções de relacionamento mais lhe agradavam. Então ele seria um namorado com pênis, ou um pênis enamorado? Tanto faz, ainda teria que esperar o ônibus por mais 8 min...

Trac. 01:16PM. ...7 minutos. Pombos. Pombos. Pombos. Pombos.

Trac. 01:17PM. Uma vez falaram para ele que um bom escritor tem que viver bebendo e fumando e ocasionalmente fudendo com alguém. De preferência uma mulher, claro. Se bem que tem aqueles caras que adoram fuder com os outros mas não no sentido que imaginou estarem lhe recomendando. Será que ele era mesmo um bom escritor? Gostava de ler manuscritos de amigos e todos escreviam aceitavelmente ao seu ver, e ele mesmo relendo o que escrevia achava medíocre. Mas falaram para ele diversas vezes que escrevia bem, e dizem que a voz do povo é a voz de Deus.

Trac. 01:18PM. E a voz de Deus é a voz de Jim Morrison. Leu na capa de uma revista que Jim Morrison era Deus, e Jim Morrison escrevia bem pra caralho. Uma vez uma amiga contou para ele que a coisa que mais excitava ela era ouvir uma música do Doors durante a madrugada. Já imaginou a garota sem roupas se masturbando enquanto Morrison canta "There's a killer on the road...", por mais estranho que isso seja. Vejam só, ela era gostosa, foi um pensamento agradável, não culpem ele, aposto que vocês já imaginaram pessoas em situações mais estranhas do que essa.

Trac. 01:19PM. Esta mesma amiga lhe contou uma vez que seu sonho era dar pro Jim Morrison, não importava ele ser um bêbado, brocha, estúpido, o que fosse. Ela queria dar para ele mesmo que fosse em sua fase gorda e nojenta, mesmo coberto com cicatrizes pelo corpo todo. Não precisava nem dar da forma mais tradicional possível. Uma chupada já seria um sonho, e assim ela poderia morrer feliz. Não queria mais nada da vida, virava freira se pudesse colocar a boca em volta da cabeça do pau do Jim Morrison. Não exatamente foram estas as palavras que ela utilizou, mas era isso que significava e isso que ela pensava quando, vejam só, se masturbava de madrugada enquanto Jim Morrison cantava "...his brain is squirmin' like a toad".

Trac. 01:20PM. Será que algum dia alguma guria pensaria nele desta forma? Morrer em paz após um, sei lá, beijo dele? Um toque mais atrevido? Uma brincadeira de mãos durante o cinema? Um beijo atrás do pescoço? Um abraço entre dois jovens usando poucas roupas? Uma língua girando em torno de um mamilo excitado? Um dedo abrindo as paredes molhadas de uma xoxota? Um dedo acariciando um cu mais ou menos limpo? Um pênis alisando quente as pregas de uma garota? Um jato de esperma na barriga da mesma? Um beijo de boa noite, uma noite onde passam juntos, um acordar para um café da manhã, e pronto... muito mais do que uma chupada no Jim Morrison. Muito menos do que uma garota espera dele, pois claro, ele não é o Jim Morrison, e nunca alguém ficaria satisfeito com o que for que ele fizesse. Ele é um bosta esperando um ônibus.

Trac. 01:21PM. E ainda esperando um ônibus para voltar para casa depois de mais um dia de estudos que não o levariam a lugar nenhum. Se demitiu do emprego para fazer o seu mestrado com promessas de um emprego melhor, estava acabando já suas obrigações, e até agora nada tinha aparecido. Estava ferrado, sem emprego, sem mulheres, sem bebidas, só tinha uma bela dor de cabeça decorrente dos dias sem dormir, dias para preencher o prazo dos trabalhos que pegava para conseguir dinheiro para pagar o aluguel. Dias que se perderam pois já nem sabia exatamente que dia era, ou melhor, agora sabia. Este era uma bosta perdido no tempo e em pleno sábado voltando para casa por ter ido na faculdade pensando que era segunda. Pelo menos tirou tempo para estudar o que precisava, mas diabos, como um cara consegue confundir sábado com segunda?

Trac. 01:22PM. Um minutos para pegar o ônibus, e os pombos continuavam ali, não os mesmos, iam e vinham e iam novamente. Bem como ele estava fazendo nos últimos meses. Indo e vindo e indo novamente, um ciclo sem fim em direção ao nada. Só conseguia enxergar seu próprio traseiro, e como não era cachorro nem ao menos isso era divertido, afinal não tinha a mínima vontade de se lamber, único propósito que conseguia pensar para alguém que está admirando o quão belo é o seu fudido traseiro. E o celular toca, é uma mensagem. Mais do que isso, é uma proposta. Mais do que isso, é uma chance de aperfeiçoamento como escritor. E justamente naquele dia ele havia colocado aquela cueca que tem um rasgo no lado esquerdo. Mas era um bosta mesmo...

Trac. 01:23PM. ...mas apesar de tudo era um bosta feliz, pronto para pegar um ônibus e logo mais comer alguém durante a noite, ou pelo menos tentar. E quem tenta está vivo, certo? Então ele estava vivo, não nas melhores das condições, não com uma vida perfeita, mas estava vivo. Não era otimista, pelo contrário, mas tentou apreciar este pensamento por um instante. Logo voltou ao copo meio vazio, mas naquele instante deixou de ser um bosta, e virou um pombo, comendo os restos de comida que estavam caídos naquele terminal de ônibus.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

The Piano Has Been Drinking (Not Me)

Q: What’s heaven for you?
A: Me and my wife on Rte. 66 with a pot of coffee, a cheap guitar, pawnshop tape recorder in a Motel 6, and a car that runs good parked right by the door.

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Parte de uma entrevista com Tom Waits, o cara que ouço neste momento para ilustrar estas palavras mais. Somente mais palavras mais e pianos bêbados encharcados em álcool e fumaça, mas não eu. Estou aqui só ouvindo os dedos sujos deste cara tocarem melodias, enquanto fico bebendo o que resta no copo de suco de laranja. Acabou o café e não quero exagerar o burlesco com mais cafeína. É estranho como em certos momentos você está bem e nada te atinge. Depois por alguma besteira você avança para a zona azul do cérebro. Do cérebro pois estou dando um toque belo a um ponto que só é pintado por palavras normalmente. Seria o mesmo que dizer a zona cinza do coração, mas ao inverso. Preferi a primeira opção pois me levam a crer não ter coração, tal como o Homem de Lata que não podia nem chorar que enferrujava. Mas se até Nietzsche chorou, e Schopenhauer endoidou, o que será do cara com sentimentos de uma criança com 3 anos de idade? Oras, é só um personagem me disse o corvo que está na minha janela. Na verdade a janela é minha orelha, e o corvo sou eu. E o Tom Waits continua cantando aqui do lado. Por sinal, qual o motivo daquele trecho no começo do post? Nenhum exatamente, além de claro, concordo que aquela cena descrita por ele seria uma espécie de 'heaven'. Mas se te destinam a uma sebe de futuros que fraquejam, e tu acabas embarcando neste primeiro bote que para na beirada no passeio que estás a andar, pois veja só, existe um navegador ali dentro, seguro será? Como... e ao mesmo tempo, por qual motivo assim o fazes. Quando te restam apenas filmes bestas para te animar, motivo pelo qual te dizem ser sentimental, te resta o que exatamente? O morto ergue a cabeça e diz que não está morto. O vivo abaixa a cabeça e acredita que tudo se ajusta com o passar do tempo. Nada se ajusta com a cabeça baixa, ou quando assim o fazem, o vivo não está vendo. O morto aponta, mas mortos não falam, e o apontar já sabes que é falho, não é mesmo meu amigo? Leonard Cohen cantou sobre o futuro, deu visões pessimistas, cantou Suzanne com otimismo, encantou Suzanne com animalismo, de carne fez a carne, e oras, não deixou os problemas quebrarem sua esperança. Mas foi para longe meditar. Estes mesmo tolos, imbecis, estes que em certo momento acreditaram terem a força, depois de um tempo abaixaram a cabeça. E os mortos continuam a não falar. Mas alguns conseguiram superar. O que resta ao cara que escreve de madrugada, com a luz baixa, com o copo agora vazio? Resta fazer mais café, pois ele trai até seus medos, e vai lá se encher com mais cafeína, enquanto o piano continua bebendo e bebendo, mas não ele. Não ele... ele não bebe, só lamenta que os outros estão a beber, e assim percebe que se deixou atingir por falácias, e que não é nenhum robô, e então bebe, café mas bebe, pois isso também é considerado bebida, certo? E então bêbado com energia vital de almas alheias se engana que está novamente bem. E se engana que em algum momento estará lá, com sua esposa, na rota 66 com um pote de café, uma guitarra barata, um gravador cassete em um motel vagabundo de beira de estrada, e um carro bacana estacionado do lado de fora. Dramas e sonhos. Canções de blues e de amor tocadas naquele mesmo piano que nomeia este texto parte pessoal, parte ficcional. Qual é qual? Puxe uma cadeira e acenda o meu cachimbo que eu te conto, mas é uma longa história... amigo, tens tempo?


sábado, 31 de outubro de 2009

c8h10n4o2 para viagem (canção noturna nº 17)



Um pouco de insegurança no meu cachimbo
E uma caixa de fósforos já queimados
Como farei para perfumar o ambiente?

Arranco minha pele com teus restos e queimo
Pois tal incenso não precisa de chamas para acender
Pois tal incenso já veio aceso da loja
Onde não se vendem sonhos muito menos ilusões

Óleos corporais, escamações noturnas.
Flâmulas temporais, tecidos rasgados, sujeira
Suor inexistente. Marcas de velhos acidentes, dentes
Pelos púbicos, líquido digestivo, cálculos renais

Retornando do banheiro pingo óleo diesel fracionado
Azeite resfriado, óleo de baleia, vampores em
Meu cachimbo que não se acenderá jamais

E olhos através da janela, as luzes me cegam, já é madrugada
O que aconteceu hoje não sei, perdi minhas memórias
Já é madrugada. Sem fósforos novos para me queimar
Cuspo moedas. Sem motivos para não mais estar, fecho os olhos
E quando abro novemente já é uma nova tarde e te pergunto...

Dormiu bem cabeça oca?

"I lit  a thin  green  candle, to make  you jealous of me. But the room just filled up with mosquitos, they heard that my body was free. Then I took the dust of a long sleepless night and I put it in your little shoe. And then I confess that I tortured the dress that you wore for the world to look through." - Leonard Cohen

domingo, 18 de outubro de 2009

Terceiro olho com vista para o mar.

 http://4.bp.blogspot.com/_lJNBT4buTZs/ScEdZr_SnlI/AAAAAAAAAOU/zPAcjnslsWQ/s400/yin-yang.jpg
Sou escravo do yin-yang. Este símbolo que se origina do Tao normalmente é confundido com um símbolo de paz, e não deixa de ser, mas explicarei de forma simplória o seu significado. Ele é a representação de duas forças complementares e ao mesmo tempo únicas, é a unidade, não há separação entre elas mesmo ambas sendo distintas entre si. Vivemos em movimento, constantes mutações, sendo que o Yang represente o lado masculino do homem, o lado quente, claro, brilhante, racional, e o Yin representa o lado feminino do homem, o lado frio, o lado noturno, escuro, sentimental. Vivemos em alternâncias e elevamos estes conceitos ao extremo gerando preconceitos tanto entre os humanos conservadores como os desviantes de moralidade. Mas deixando esta questão de lado, a postagem volta ao seu início onde me afirmo escravo do yin-yang. Diversas vezes fui acusado de ser arrogante. Diversas vezes fui acusado de ser irracional. O yin-yang demonstra isso com clareza, ele é a representação mais pura do homem, pois neste círculo temos os extremos em firme contato e dentro do ponto quase de final de cada um de nossos lados vemos o outro lado sempre presente. Quando somos pensadores de certa forma fica um questionamento latente dizendo se não deveríamos estar apenas existindo, e quando apenas existimos sempre acabamos em certo ponto buscando algum julgamento. Por qual motivo não posso doutrinar os animais como humanos? Por qual motivo não posso me masturbar em praça quando vejo uma mulher atraente? Estes extremos nunca serão alcançados em plenitude, pois sempre me conceituando na explicação, quando saio por aí com amigos ou sozinho, sem racionalizar as coisas, apenas vivendo e sentindo e amando, em dado momento estarei sentindo a falta do pensamento, e o quão correto é abandonar meus conhecimentos em prol da sabedoria existencial? E quando estou racionalizando e fazendo justiça a minha inteligência privilegiada em dado momento me sinto culpado e necessitado de parar de pensar e simplesmente existir, sinto falta do natural e do nada neste tudo de pensamentos. Palavras são malignas, mas isso quando pensamos nela, pois o mal e o bem são a mesma coisa em teoria, quem os define somos nós ao julgar ações e conceitos. Têm-se o dom de comunicar com palavras, então até que ponto é injusto ao nosso instinto fazer isso. E se temos o instinto por qual motivo precisamos a todo o momento estar vivendo em sintonia com palavras. O belo é arrogante com o não tão belo assim. O esperto é arrogante com o não tão esperto assim. O inteligente é arrogante com o não tão inteligente assim. O sábio é arrogante com o seu poder cerebral. E se formos escravos do cérebro? Será uma prova para alcançar o nirvana? O nirvana no yin-yang seria um ponto centro, onde não se depende mais da fruição da vida, e sim do existir neste meio. Mas o homem deve viver o caminho do homem, e enquanto homem nos tornamos dependentes desta fruição. A maior parte das pessoas não admite isso e por isso gosta de personagens lineares. Novelas fazem sucesso com o bem e o mal expostos claramente. A sociedade classifica o bem como a exclusão de todos os conceitos que acha desagradável para o seu ego. Somos apenas egoístas. Alguns admitem isso, mas na hora que são questionados se consideram diferentes. Ninguém é diferente, nossas personalidades são apenas formas de nos enganar e parecer mais justos, individualizados, e isso é o correto para a sociedade. Como o homem que quer se mostrar individual, pois acha que isso é superior, não enxerga que em qualquer caminho feito com o coração a superioridade é justamente o caminho contrário? Não deveríamos estar preocupados em nos tornar individuais e exclusivos, e sim todos a mesma coisa, mas uma mesma coisa mais justa, não uma mesma coisa estereotipada e forjada por padrões comportamentais que só fazem bem ao controle humano. Para ver como estamos já dominados por padrões e mensagens o descontrole é visto como errôneo. Perder o controle é algo que ninguém quer, então mudo o ângulo de visão da pergunta, queremos ser controlados? Ser você mesmo quando você não sabe o que é não passa de cair numa outra forma de controle, o controle do ego. Queremos ser controlados? Controlamos os outros diariamente e gostamos disso, e não há nada de errado nisso, mas quando fazemos pelo instinto, o problema é que a maior parte dos atos que pensamos ser instintivos na verdade já foram mimetizados para assim parecer e assim parecer bom. Como descobrir nosso cérebro dos conceitos que nos foram dados desde novos por diversas formas de domínio de nossa existência? Não temos como voltar à natureza selvagem, nem seria justo com o que evoluímos até hoje, mas não é nada mais justo também continuar como estamos agora. Voltando novamente ao escravo do yin-yang, afinal este texto disfarçado de questionamento ideológico por mais que tenha intenções além desta base, não se perde de ser uma expurgação de meus próprios dogmas. Alterno entre clarividências de espiritualidade com arrogâncias racionais. Enquanto inteligentes tenho inveja do meu lado sábio e enquanto sábio tenho inveja do meu lado inteligente. Seja aberto e admita isso, creio ser um passo importante para alcançar o seu centro. Enquanto isso vivemos um ensaio do caos e invertemos valores, nossa não-dualidade toma forma (de alguma forma) através da informação que flui pelas nossas cabeças, ao mesmo tempo em que negamos esta corrente e fazemos tudo para aumentar o tamanho de nosso falo. Somos os mais evoluídos, os mais inteligentes, temos tecnologia, mas ainda somos macacos, e não sabemos lidar com este contraste. A resposta está em algum lugar central a isso tudo, não tenho idéia de onde seja este centro, por isso continuo vivendo meu fluxo constante de arrogância e amor, racionalização e sentimentos, ego e sinceridade. Até mais, e obrigado pela preferência (e pelos peixes!).

sábado, 17 de outubro de 2009

Cartase da escravidão cultural pelo Sr. LoveFuck aos servos renascentistas expatriados: Parte I

Schiele teve um pai doido
Cada dia aparecem mais filmes para ver.
Cada dia aparecem mais livros para ler.
Cada dia aparecem mais discos para ouvir.
Cada dia desaparecem mais horas para amar.

Amar no sentido romântico, banalizado, inventando.
Vemos o tempo passando e nossas vidas acabando.
A cada segundo vivido é menos um segundo contigo.
E quem é você? Por qual motivo perco meu tempo pensando?

Existem outras formas de amar. Mas cadê? Por quê?
Existem? A cada dia mais filmes, livros, discos.
A cada dia menos amor, menos corpo, menos sentimento.
Menos alma. Menor a preocupação com o certo.

Nem me preocupo mais se este poema está correto.
Só não quero saber o que vou fazer amanhã.
Menos tempo para o amanhã e para o tempo.
Mais tempo para você. Se você estivesse aqui...
Mas aqui só estão meus discos, livros, filmes, espaços vazios.

Cada dia aparecem mais motivos para chorar.

"Sim, o eterno retorno significa que, cada vez que você escolhe uma ação, deve estar disposto a escolhê-la por toda a eternidade. O mesmo se dá com cada ação não realizada, cada pensamento natimorto. Toda a vida não vivida ficará latejando dentro de você, invivida por toda a eternidade." - Irvin Yalom

sábado, 10 de outubro de 2009

Jornal das 7.



Está começando o Jornal da Noite primeira edição.
Agora fiquem com as manchetes do dia.
Ciência destrói a Descoberta.
Religião destrói a Espiritualidade.
Políticos destroem a Liberdade.
Advogados destroem a Legalidade.
Mídia destrói a Informação.
Médicos destroem a Cura.
Está tudo ao contrário no mundo em que vivemos?
Se você tiver sorte... boa noite!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Besteiras para com a Música lavar em azul.

 

Você irá nascer, e pessoas estão ali a te esperar
Sorrisos nos rostos, esperanças de um futuro brilhante
Ou ao menos o zagueiro do melhor time da cidade
Eles vão pela natureza tentar estar ali por toda tua vida
E no final ela é a única que não te abandona.

Você irá ficar maior, aprender a ler e escrever
Na escola irão te dar os parabéns pela sua inteligência
Outros irão te odiar e te julgar pelo mesmo motivo
Teus colegas irão te chamar para brincar, sorrisos e bonecos
Mas no final ela é a única que não te abandona.

Você começará a reparar nas meninas, bonitas e simpáticas
Depois você irá começar a reparar nas mesmas, de outra forma
Você começará a reparar nas meninas, sensuais e tentadoras
Em algum momento você dirá 'Eu te amo' pela primeira vez
E no final ela é a única que não te abandona.

Você verá que outra virão e irão, poucas realmente importarão
Estás prestes a acabar a escola, vem uns porres, vem experiências
Tens seus melhores amigos ,aqueles que dizem ser eternos,
Pois nesta idade que se formam as verdadeiras amizadas
E no final ela é a única que não te abandona.

Você entrará na faculdade, sua vida toma um rumo, é seu futuro ali
Novas visões, novas idéias, mais alimento intelectual para os fracos
Mais bebidas, mais destruição do corpo e da alma, eles te moldam
E pronto, estás no ponto ideal para sair dali, ser um homem de negócios
E no final ela é a única que não te abandona.

Você faz amizades no trabalho, você cumprimenta eles todos os dias
Te chamam para festas, contam piadas sobre o chefe
Você dorme com a mulher do cara que senta na mesa ao lado
Chega a sexta, todo mundo contente, é hora de ir para casa ver TV
E no final ela é a única que não te abandona.

Você evolui na empresa, quem sabe mude para outra melhor
Quem sabe ano que vem ganhe aumento, começa a pensar em casamento
Se casa com a mais bela da faculdade, aquela que você amará eternamente
Aquela que você trairá assim que uma belezinha na rua te cantar
E no final ela é a única que não te abandona.

Você terá sucesso profissional, sairá no jornal local
Quem sabe um dia apareça nas páginas amarelas de uma revisa importante
Seja citado futuramente em boas publicações, receba prêmios
Sorrisos invejosos chegando, mãos raivosas apertando, você é um sucesso
E no final ela é a única que não te abandona.

Você terá filhos, vais criar eles para serem melhor do que você
Irá enxer eles de dogmas, formará eles na sua religião, dirá que você sabe tudo
Eles irão contra o que tu diz, você ficará bravo, mas um dia entenderá
É a juventude, rebeldia, você então pensa 'eu tenho uma família feliz afinal'
E no final ela é a única que não te abandona.

Você irá envelhecer ao lado de sua esposa, que tu nem ao menos ama mais
Quem sabe se separem e você morra como um velho amargo
Quem sabe vocês fiquem juntos até a morte e você morra como um velho amargo
Quem sabe o seu funeral seja o mais belo da cidade cheia de pessoas amargas
E no final ela é a única que não te abandona.

Ela estará lá mesmo quando sua alma tirar a armadura pesada que carregou durante todos os anos para finalmente conseguir se juntar a essência universal que sempre esteve do teu lado mas você negou constantemente pois queria uma vida material, cheia de fama e riquezas, mulheres e destrezas, amigos e avarezas, reconhecimento e pouco importa tudo o mais de besteiras que você conquistou amargurando aos outros e a ti mesmo. Mas agora você morreu, sua esposa estará com outro homem e lembrará de você pela forma que você se portava e não pelo que você realmente era. Seus filhos terão suas próprias vidas de felicidades e tristezas e lembrarão de você pela forma que você se portava e não pelo que você realmente era. Seus amigos irão brindar uma vez ou outra em teu nome e lembrarão de você pela forma que você se portava e não pelo que você realmente era. Teus colegas de trabalho irão fazer comentários engraçados sobre fatos do passado sempre com um fundo de desprezo por ti e lembrarão de você pela forma que você se portava e não pelo que você realmente era. Seus influenciados e seus futuros admiradores irão mirar em teus exemplos possivelmente de um jeito errado pois/e lembrarão de você pela forma que você se portava e não pelo que você realmente era. Você será bonito e feio, forte e fraco, irresponsável e sábio, ignorante e inteligente, temeroso e ousado, e diversas outras características, e diversas outras combinações, e diversas outras imagens, e diversos outros personagens, e quem será você mesmo? Você tem certeza que alguém realmente falou contigo algum dia? Fecho o livro de tua vida e me despeço, pois tudo o que eu posso fazer é ser eu mesmo, independente do que isso seja. Também vou te abandonar, mas sorria, pois você já sabe que no final ao fundo sempre tiveste o tudo e o nada no aqui e no agora, quem sabe outra hora, mas por hora morres pelos mesmos caminhos que antes choravas, tivesses ele mas desprezaste, o amor real, e ele, onde ficava? Chega e senta e aguenta. É o final...

E no final ela é a única que não te abandona.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Innuendo.




[o vento continua soprando forte naquele banco de praça, tem espaço para suas pernas, mas você já está cansado de bem aproveitar ele, busca motivos para abaixar as pernas, sente motivos, imagina motivos, deseja motivos, engole motivos, ouve motivos, sonha motivos, chora motivos, mas os reais motivos não vêem além do que possibilidades e reais possibilidades, mas suas pernas continuam erguidas pois o espaço tem que ser ocupado, é este teu papel no universo. aguardar um outro metrônomo como o que tens no peito. aguardar que outro corpo faça o lugar de tuas pernas. aguardar carne para onde possas liberar calor pelas pontas de teus dedos. tuas pernas cansam. teu metrônomo chora. teus olhos ardem e procuram um novo ponto de foco naquela madrugada gelada naquele bando de praça. você sente? que bom, estás vivo, ainda á muito tempo para esperar que algo seja feito, você tem suas ações na manga, precisa somente de mãos ali dentro, de encontro ao teu braço, ao lado de tuas mãos, e aquela expressão que energizará teu metrônomo.]

Olhando pela janela ele pensava se não seria melhor para sua existência se algo acontecesse para acabar com sua história.
O corpo ainda teve tempo de virar no ar, os cacos de vidro desorganizadamente se prostaram num painel, o cérebro ativo ainda.
Não queria morrer, queria apenas saber como seria esta sensação de ter sua vida roubada pela morte que logo ali o admirava.
Virou história como sempre queria, morreu como sempre imaginara, viveu como sempre apaixonado foi.
Um belo acidente de carro para as páginas do jornal do dia seguinte, a vida na terra continua, e continua querendo tragédias.
Numa estrada o carro se perdeu, a janela se partiu em pedaços, seu corpo foi violentamente esmagado contra um muro.
E estes foram seus últimos pensamentos de fato, mal sabia que estava realmente chegando os créditos, a música final.
Seria apenas o encerramento ocasionado pelo seu destino.
Não eram desejos suicidas, ele nunca que iria se matar ou sequer pensar em como seria bom isso.
Pensava como seria ter alguns poucos segundos para perceber que logo chegariam os créditos de sua vida, e a música final.
Algo não forçado por ele, que não fosse previamente desejado, simplesmente acontecesse.
Olhando pela janela ele pensava se não seria melhor para sua existência se algo acontecesse para acabar com sua história.

[essa é a sensação de ter sua mente escorrendo gélida para fora de ti mesmo, pelo seu ouvido, e se encontrando com seus sentimentos que estão vestidos como uma velha roupa. por entre metáforas e processos complexos, não passa tudo isso de real transfiguração do que tu sente. tens direito de desejar, e direito de se frustrar. tens direito de confiar que pensando forte em algo, este algo acontecerá. tens direito de acreditar no futuro, tens direito de desejar diversas coisas. e neste momento você desejaria somente uma coisa. e algo por aí sabe o que se trata esta uma coisa, mas não está ali, contigo. continua esperando, verdadeiramente. e confia. confia. confia.]

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Recado para mim mesmo:

pessoas são compostas de corpo e espírito. algumas não possuem a segunda parte, são apenas corpos. as outras utilizam os corpos para sua única utilidade real, criar livros e filmes. o resto não importa. é falsidade e hipocrisia. corpos em excesso e sem utilidade só ocupam espaço inútil no mundo. um mundo sem corpos poderia ser muito mais belo, pois teriamos a essência, as formas, as vidas que importam, a beleza natural, e espíritos vivos por aí. se não tivessemos corpos os livros e músicas seriam propagados de uma forma menos orgânica. seriamos todos únicos, uma verdade universal, sem ego, ganância, furtos, sentimentos machucados, ações planejadas para um caos falso, corpos sufocando espíritos... corpos imbecis. que se consumam aos extremos, que se dopem, que sejam forçados ao abuso material. que sejam estuprados e jogados por aí, é um presente aos que não tem espírito vivaz. para os pecadores a tortura é a única forma de contemplação ao supremo, ao essencial.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

insone.


Rockabilly, é isso que ele está ouvindo neste momento.
Sai do banheiro, boca limpa, dentes escovados. Não mais poderiam dizer que passou as últimas horas bebendo whisky.
Vai na cozinha, e prepara um pouco de café, precioso líquido que agora se faz necessário.
Agora e para todo o sempre, até a hora de vossa morte.
Amém, disseram para ele quando novo. Ele acreditou, e mentindo estaria se falasse que não pensa mais no assunto.
O tolo está pensando neste momento. Pensando em amor, em amar, e também pensando se vai colocar açúcar no seu café.
Não coloca, já chega a cafeína, não quer mais um estimulante ali, afinal o "vagabundo" tem que trabalhar amanhã.
Mas ainda é hoje, troca o disco, agora ele vai para um jazz nervoso, representação de seu interior neste momento.
Quer parar de pensar em besteiras, mas se vê sem sono, sem motivação, sem...
Sem tudo o que deveria estar com, e com tudo o que deveria estar sem. Um inverso do reverso. Mas isso não seria o correto?
Desistiu de pedir desculpas por ter problemas, todos têm, por qual motivo implicam de ele ter os dele, vejam que bela coleção.
Pega um papel e começa a rabiscar um desenho. Não desenha porcaria nenhuma, mas acha que desenha.
Deveria ficar só nos textos, mas cansou de tentar mudar o mundo, faz músicas então, mas nisso não é o melhor no que faz.
Uma noite insone não é simplesmente passar a madrugada acordado – para isso cabem várias outras designações.
E as horas passam, e quando vê o dia já está nascendo. Pena que é só no filme que passa na TV que deixou no mudo.
Lá fora ainda é noite, e vai ficar assim por um bom tempo. Na mente de quem tem certeza, as horas demoram a passar.
A depressão aumenta, a dor no estômago também. Te falei que ele está com dor no estômago? No estômago e na cabeça.
Não toma uma aspirina pois elas não adiantam mais. Então pega lá mais uma caneca de café, entorna, e se joga na cama.
Olha para o teto e começa a pensar que amanhã tem que acordar cedo. O que adianta pensar nisso agora?
Queria não estar sozinho na cama. Ou será que é só mentira dele? Será que ele não se coloca nestas situações por prazer?
Isso seria masoquismo, e como bom poeta, depressão sim, prazer na dor jamais, ou pelo menos mantenha a pose que não.
Reclame. Ele reclama. Sinta. Ele sente. Ame. Ele ama. Viva. Ele vive.
Morra. Ele não morre, ainda não é a hora. Nosso herói pensa diversas vezes ao dia como será o amanhã, mas ele só tem a certeza do hoje, ou de como queria que fosse.
Mas não é como ele queria. E ele entende isso. Mas não perde as esperanças, a qualquer hora as coisas podem mudar.
A qualquer hora a cama pode não estar mais vazia. A qualquer hora os livros não serão mais rascunhos.
Poderá significar algo. A qualquer hora ele pode estar morto. Mas agora está vivo, e continua confiante em si mesmo.
Escova os dentes novamente. Agora com um sorriso irônico nos lábios, comendo o recheio das lembranças.
Colocando de volta no pacote as bolachas, limpando o canto da boca sujo de desejo, respirando ainda com uma certa dor interna, não do estômago, mas sim da ansiedade pelas boas novas. Aquelas que farão ele se contentar até que ache um novo motivo para voltar a ser chato.
E ele terá. Está chegando logo ali, junto com a Insônia que foi buscar uma pizza mas já está de volta.
Boca limpa novamente, mas a mente disfarçou por um momento, mas não está bem. Novos pensamentos, novas horas lentas correndo.
Enquanto os olhos sangram, o coração continua batendo, e tudo fará sentido no fim da noite...

[essa é uma obra de ficção, apesar de tudo ter acontecido em alguma vida real.]

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Como achei a cura para a gripe após operar meu próprio cérebro.


Desde que parei de me preocupar com a gripe, nunca mais fiquei gripado. Eis a cura, agora vamos aos motivos pelo qual estou falando sobre isso, e toda a base por trás desta simples, quase humorística afirmação. Claro que ninguém irá me levar a sério realmente, nem pretendo. Essa minha cura pode ser apenas coincidência, bem como pode ir por água abaixo a qualquer momento. Mas o fato é que desde que parei de pensar que ficaria gripado por qualquer besteira, nunca mais entrei numa gripe daquelas profundas. Andei na chuva quando estava com vontade, não troquei a roupa molhada quando não queria, tomei bebidas geladas no inverno, andei na neve de bermudas, dormi numa floresta ventando... falaram que eu não deveria, mas como sou averso a deveres preferi ir pelo meu próprio querer. Foi quebrar meu ego a favor do meu eu.
Num recente estímulo a conversar comigo mesmo, em certo momento do transe que parecia perdido, aceitei o momento e resolvi parar de buscar respostas, só sentir. Foi aí então que consegui visualizar os elos que me levam a todas as pessoas que já tive contato em vida. Caminhando por entre esta galeria de vínculos, cheguei a pessoas que têm me causado algo mais recentemente, e vi que mesmo as que eu mantinha sentimentos ruins, ali com meu eu nu minha sensação a elas se mostravam diferentes do que normalmente assumo, novamente por culpa do meu ego, esta máscara que dita como eu devo considerar os outros e me fazer vivo para que os outros me considerarem um algo programado, um habitante de suas vidas.
Foi estando desperto por estes estímulos, então, que notei o quanto gosto de muitas pessoas, e o quanto tenho manipulado até a mim mesmo para assumir uma característica diferente quanto a elas na realidade existencial. Por qual motivo eu estava tão bem naquele momento com essas pessoas, e na vida cotidiana, mesmo quando sozinho e pensativo, eu acabava tendo sensações ruins, tristezas, depressões, saudades que machucam, e toda esta gama de máscaras envenenadas? Lembrei então de minha gripe.
Quando parei de tentar resolver a gripe antes mesmo de ela chegar, parei de ficar ruim por ela. Às vezes tenho tosse, às vezes espirro, às vezes meu nariz tranca por um tempo, mas aceito isso como pequenas variações do corpo decorrente de motivações que não compreenderia sem pensar cientificamente. Assim deveríamos tratar nossas relações humanas. Estabelecer contato com pessoas acaba sendo experiência, e a partir do momento que você cria esse contato, ela entra em sua galeria. Esse contato poderá evoluir em relações, com momentos bons ou ruins, ganhos e perdas, compreensão e silêncio. Nos preocupamos em agradar os outros, ou seja, criamos um pensamento sobre como os outros irão reagir a tais e tais coisas. Que direito temos de supor como o outro irá se sentir em relação ao que tu és e fazes? Por mais que as intenções sejam boas em muitos casos, nossas relações são pessoais, interdepentes, claro, por isso em vez da preocupação o melhor caminho é a honestidade. Os que desejam controle temem o conhecimento alheio, e a virtude do homem honesto. Ser honesto, viver o que desejas, quebrar seu ego e não querer resolver as situações com controle é a melhor forma de resolver os problemas da forma mais nobre, através dos sentimentos.
Fiz estas conclusões em mais um momento de caminhada, onde pude filtrar as experiências e começar a buscar a sensação pura também na realidade sã. Sentimentos nomeados, como amor, ódio, raiva, desejo, carinho, saudades são criações de nosso cérebro. Sentimentos reais só serão reais através da honestidade, sem máscaras. Deixe de se preocupar com a dor em você e nos outros, se preocupe com o sentir, e com o perceber das reais ligações que temos uns com os outros. Assim terás o amor real, não o amor romântico, filosófico, ideal. A única forma de não machucar os outros é deixar que eles aceitem a tua honestidade, e para isso sede honesto consigo mesmo. Tuas dores assim também serão reais, e nunca mais ficarás gripado, de corpo, e de alma.

"That unfortunate time is ending when suffering was considered to be an inevitable part of life. (Este tempo desafortunado terá fim quando sofrimento for considerado parte inevitável da vida.)"
- David Lynch

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Decálogo.


1. Não tenhas certeza absoluta de nada.
2. Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.
3. Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.
4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.
6. Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.
7. Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.
8. Encontres mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.
9. Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.
10. Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.

Sugestão de dez princípios por Bertrand Russell.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Ele está se tornando melhor, não veem?


Não gostaria de estar aqui, mas ia me sentir mal pelo resto da vida se não fizesse esta visita. Estive afastado de minha cidade por tempos, e quando retorno fico sabendo das notícias. Meu velho amigo cedeu ao que já demonstrava ser seu caminho, não aguentou a pressão, e foi declarado humano. Esta visita é o mínimo que eu poderia fazer por ele. Engoli o medo e resolvi me dirigir ao Mundo Real. Agora é tarde para desistir, já fecharam as portas atrás de mim, sempre em frente como diria meu pai. Vejam só, então este é o pátio da Realidade, todos estes seres sentados, ou andando, com suas expressões de preocupações, seus sentimentos verdadeiros que só duram o tempo de serem frustrados por outro alguém com também verdadeiros sentimentos. Todas estas pessoas saindo de seus quartos para fazer algo neste local. Uns brincam de médico, outros brincam de artistas, é triste. Então olho para a direita e está lá, meu amigo, velho Conformismo. Não mudou nada, ainda continua com o sorriso sereno de quem busca sempre a opção mais fácil. Sinto pena dele, e de todos que estão aqui, sinto como se...

- Amigo! É você.

Sim, sou eu. Ele me reconheceu e está vindo para cá. Não consigo falar nada, mesmo tendo muito para dizer. Seu rosto me rouba as energias, portanto escuto. Fala.

- Vejo que estás assustado. Não é para menos, achei que nunca iria vir para cá, mas veja só, estou preso com todos os outros. Todos estão aqui, e não sei, acho que me resta um pingo de ousadia e visão, tenho medo de perder isso logo. Por enquanto ainda te vejo e te entendo, mas os outros aqui, todos, caramba, não sei nem como dizer. Todos aqui vivem seus dias achando que isso é nosso destino e nada pode ser feito. Eu que me chamo Conformismo pareço ser o único que ainda mantém a insanidade em dia, mesmo que debilitada. Mas como já disse, logo devo perder. Posso ser sincero contigo?

Pode.

- Não luto mais contra isso. Desisti de mudar e aceito meu nome. Cansei de defender que não esperassem que lhes dissessem o que fazer, cansei de viver a vida por mim mesmo. Temos regras aqui, e seres mais poderosos. Os guardas que te guiaram aqui para dentro, por exemplo. Como viver lutando pelo que acredito se isso parece desagradar tantos outros? Você ainda usa sua imaginação, não é mesmo? A minha se esgotou. Tentei ser perfeito, e acabei aqui nesta realidade. Todos aqui tentam ser perfeitos, e mesmo que pensem que estão por si, a perfeição já vem de certo ideal externo.

Não sou perfeito, nem quero. Não entendo o motivo pelo qual queres ser perfeito amigo, seja você mesmo, perfeito na sua imperfeição...

- Comecei a pensar que estava mesmo sendo perfeito, a renegar o amador, queria profissionalismo, deixei a graça de lado, queria risadas precisas e fabricadas. Tive medo de errar, entrei na perfeição. “Bem-vindo ao Mundo Real”, me falaram. Sorri para isso, os guardas então me pegaram. Os chefes me deram uma entrada para cá. Tenho meu quarto, fiz família aqui
dentro, está tudo tão bem.

Espera, o discurso está mudando. Ele falou que não queria perder sua insanidade, mas a cada momento parece estar mais seguro do que fala. Ele está...

- Estou me sentindo realizado. Logo estarei ali sentado esperando minha morte. Veja, minha vida é perfeita aqui dentro.

Não.

- Sim, tenho tudo o que quero. Temos TV aqui dentro, o que mais precisamos?

Viver?

- Não faço mais besteiras, sou um homem correto e reabilitado. Orgulho-me de meu conforto. Tantas vezes disse sim, agora o não me seduz. Não tentar coisas novas, para quê? Vamos morrer um dia. Melhor fazer o certo, seguir os passos já traçados, inovação é para os loucos.

Qual o problema em ser louco?

- Aqui neste mundo real as coisas são tão mais fáceis. Resolvo meus problemas dando um passo para trás, não encarando o novo, o antigo era funcional até certo ponto. Você fica lá fora, naquele hospício, com sua maldita liberdade, tendo que lidar com situações inéditas, e com isso os problemas são maiores.

Maiores, mas quanto maior o problema, maior a recompensa. Prefiro tomar decisões firmes e lutar por elas a me voltar ao mais fácil, ter também problemas, mas não evoluir com eles. Amigo, o que ocorre contigo? Desde que cheguei você está mudando aos poucos. Será que minha demência te assusta e acelera sua queda para a permanente estadia aqui no Mundo Real?

- Realidade!

Loucura!

- Conforto!

Nonsense!

- E tu ficas aí com este semblante de terror, não fala comigo. Tu és louco?

Sou. Juro que queria falar contigo, mas esta tua certeza de felicidade que não passa de um disfarce para teus profundos pesares me impede de comunicar o que sinto. Esta tua normalidade não condiz com minha complexidade que te tenta, mas te afasta. Como vieram te pegar? Trancar aqui. Estavas ainda com um brilho no olhar quando cheguei, mas do nada só vejo uma fumaça cinza saindo de teus poros. Teu colorido não me parece mais vívido, por mais que se eu te perguntar vais estar radiante. Não creio que minha mão tenha forças para te arrastar daqui, nem quero tentar. Não me diz respeito a tua normalidade. Você teria que quebrar ela por conta própria, mas teu nome é Conformismo, isso pouco me conforta.

- Certo, não vais falar.

Não posso, quando falo faço lambança, e isso seria demais para ti. Não és livre para errar, as falhas te machucam mais do que espinhos. Entendi que queres ser perfeito, o que resta para mim além de torcer que percebas a beleza que há na possibilidade de falhar? Com esta possibilidade os acertos se fazem muito mais deliciosos.

- O que mesmo tu falavas sobre viver?

Viver é experimentar. Dar uma chance a uma nova possibilidade. Tem a ver com trabalhar com o que você tem na sua frente e transformar tudo de embaraçoso, medonho e estúpido da sua vida em pontos a favor.

- Não importa. Adeus.

Adeus. Não poderia mais ficar neste local mesmo. Já notaram que minha presença aqui é um mal para esta organização tão bem disfarçada como o correto. Mais alguns minutos e os que cuidam dela viriam pessoalmente me expulsar. De volta ao espaço aberto, sem paredes, vou achar meus semelhantes e juntos vamos rumo ao infinito. Conhecer novos lugares. Sentir novas sensações. Se abrir a novos amores. Superar as velhas dores. Estou livre e isso é que importa. Estou vivo e não vejo a hora de experimentar o literal deste presente, no futuro, com o que aprendi no passado. Guardo minhas lembranças na mala que sempre me acompanha, e começo a caminhar. Dou a mão a quem vem ao lado. O dia está lindo. Olho para trás e sinto falta do Conformismo, mas sei que ele vai ficar bem. Lá dentro da Realidade existem muitas pessoas que precisam dele, não as culpo, só espero que um dia elas consigam abrir os olhos e ver o quão belo é aqui fora. Continuo andando, resolvo cantarolar uma velha canção sobre tristeza, pois não há nada de errado com ela, como muitos pensam. No final sei que estarei alegre. Venceremos! E a isso brindaremos! E beberemos! Saúde!

 
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